Como Serralves é um bom negócio para o Estado

O complexo artístico-cultural de Serralves é a prova contemporânea de que “a cultura tem retorno económico”. A instituição do Porto contribui com mais de 40 milhões de euros para o PIB, multiplicando por 10 cada milhão que recebe do Estado. “Afinal, há parcerias público-privadas boas…”

“É fácil calcular o valor de Serralves. Será que podíamos imaginar o Porto subtraído de Serralves?” Foi com esta simplicidade desarmante que Carlos Moedas, secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro, encerrou a cerimónia de apresentação do estudo sobre “O Impacto Económico da Fundação de Serralves”, recentemente realizada nas instalações da instituição, no Porto. “Afinal, há parcerias público-privadas boas” e essas “não deviam levar cortes, mas sim as outras”, alfinetou o social-democrata Paulo Rangel, no debate entre eurodeputados que antecedeu a intervenção de Moedas. Momentos antes, a socialista Elisa Ferreira tinha já enfatizado que a riqueza gerada por Serralves é um bom negócio para os cofres estatais, pelo que “o envolvimento do Estado em determinadas estruturas não é uma despesa, é um investimento”, afiançou a eurodeputada.

O estudo avança que a actividade do complexo artístico-cultural de Serralves produziu, em 2010, um impacto global sobre o PIB de 40,56 milhões de euros, contribuiu para criar 1.296 postos de trabalho, gerou cerca de 20,7 milhões de euros em remunerações e permitiu ao Estado encaixar 10,8 milhões de euros em receitas fiscais. Os proveitos atingiram 9,53 milhões de euros em 2010. “Eu não esperava que os resultados fossem tão simpáticos, que tivéssemos este efeito multiplicador no PIB, nas remunerações, até na receita fiscal”, confidenciou ao Negócios Braga da Cruz, presidente da Fundação de Serralves. Pela métrica da Porto Business School, que realizou o estudo, o retorno na criação de empresa e nas remunerações é multiplicado por cinco e nas receitas fiscais por dois, com Serralves a conseguir ainda multiplicar por 10 no PIB cada milhão de euros que o Estado transfere para a instituição. “Demonstrámos assim que a cultura tem retorno económico”, conclui Cruz.

O impacto da cultura na economia segundo o governador do banco central

O governador do Banco de Portugal saudou “calorosamente” esta iniciativa, não só porque “se insere na corrente pioneira das instituições que assumiram que há uma dimensão económica que resulta da sua intervenção”, como também “não se limita a pôr em confronto os custos e os proveitos que dela decorrem”. Para Carlos Costa, que prefaciou o estudo, “conjuntamente com a Casa da Música,

[Serralves] contribuiu para a transformação da imagem da cidade, que passou a ser identificada com modernidade, vanguarda e criatividade”, valores “reforçados pelo facto de a Fundação ser também sede de um movimento de empreendedorismo cultural”.
Para além de prefaciar o estudo, Carlos Costa participou na sessão de apresentação do mesmo com uma intervenção sobre “O Impacto da Cultura na Economia”, ressalvando que este “não se mede apenas através da geração de dormidas e emprego”. Para Costa, “há que contabilizar o impacto intangível na transformação do meio. Ninguém compra um produto que não tenha associado um imaginário de modernidade e qualidade. Não há transformação económica no meio da apatia”, rematou. Curiosidade: o coordenador científico do estudo, José Costa, a quem coube apresentar as grandes linhas do documento, é irmão do governador do banco central, tendo este confidenciado que era a primeira vez que os dois se cruzavam profissionalmente em 41 anos.

Serralves compara bem com o Guggenheim de Bilbau

Na concorrência com outros estudos de impacto económico de museus de arte e festivais, e outros eventos culturais, a leitura comparativa torna-se inquinada pelo facto de as métricas terem sido efectuadas para períodos diferentes. Mesmo assim, quer pela proximidade geográfica quer temporal, atente-se ao Museu Guggenheim de Bilbau, cujo estudo de 2009 regista que terá gerado um impacto no PIB de 185,6 milhões de euros, contribuindo para a manutenção de 3.695 empregos e um encaixe de 25,7 milhões de euros de receitas fiscais. Quando comparado o impacto de Serralves com o Guggenheim, constata-se que, “por visitante [450 mil contra 905 mil], o impacto no PIB é ligeiramente inferior a metade e que o impacto no emprego, em termos relativos, é maior do que o impacto no PIB, acontecendo o mesmo com o efeito sobre as receitas fiscais”.

O que diz o presidente da Fundação de Serralves

Impacto económico
Eu não esperava que os resultados fossem tão simpáticos, que tivéssemos esse efeito multiplicador no PIB, nas remunerações, até na receita fiscal, conforme o estudo demonstra. É claro que os números valem o que valem, mas não são negligenciáveis. E somos a instituição cultural do País que mais dinheiro público alavanca com dinheiro privado.
Cortes nos apoios estatais
O Governo quer cortar 30% nos apoios a todas a fundações, mas eu quero crer num juízo que discrimine positivamente aquelas que tiverem melhor desempenho. Se for de 20%, nós conseguiremos sobreviver, aparentemente, sem grandes alterações em termos de qualidade, pois uma coisa destas pode sempre ser acomodada com alguns ajustes. [Se for de 30%] provavelmente [terá que rever em baixa a oferta cultural].
Acervo de obras de arte
A nossa colecção já conta com quatro mil obras, sendo que a contribuição do Estado para o fundo de compras, de 2011 a 2015, também sofreu uma revisão em baixa de quase 50%, para 3,75 milhões de euros. Nos últimos 15 anos, desde que o museu existe, comprámos obras no valor de mais de 15 milhões de euros, dos quais o Estado entrou com sete e Serralves com nove milhões.
Também aqui a alavancagem é significativa.
Fonte: Negócios

 

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2017-01-01T18:29:27+00:0028/03/2013|Categories: Geral|Comentários fechados em Como Serralves é um bom negócio para o Estado
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