“Efeito borboleta” diz que um bater de asas no Brasil pode levar a um furacão no Texas. Portugal foi abalado quando se começou a reduzir os estímulos nos EUA. Agora, a Fed vai subir a taxa de juro.

Setembro de 2013. A confiança dos investidores internacionais em Portugal parecia estar a restabelecer-se, uma vez que Paulo Portas revogou o pedido de demissão e foi afastado o risco de eleições antecipadas sugerido pelo Presidente da República. Os juros da dívida, que tinham superado os 7,5% no pico da crise política de início de julho, caminhavam novamente em direção aos 6% até que, nesse mês de setembro, a pressão voltou. A yield a 10 anos voltou à região dos 7,5% e alguns justificaram a pressão sobre os juros com mais um chumbo do Tribunal Constitucional que se confirmaria no final do mês. Terão sido, realmente, nesse momento, os juízes do Palácio Ratton a gerar desconfiança nos mercados em relação a Portugal?

Ao mesmo tempo que, cá no burgo, se discutia quantos mais chumbos do TC viriam, se o governo sobreviveria e se o país conseguiria escapar ao segundo resgate e precisar – apenasde um programa cautelar, uma borboleta estava a bater as asas do outro lado do Oceano Atlântico. Foi no início desse mês de setembro que a Reserva Federal dos EUA (Fed), o banco central mais poderoso do mundo, deu sinais claros de que queria preparar os mercados financeiros para o começo do fim do programa de estímulos infinitos que tinha sido lançado um ano antes. Alguns analistas apontaram, logo na altura, que foi essa decisão da Reserva Federal – que se concretizaria no final desse ano – que afastou muitos investidores da dívida portuguesa e fez subir os juros.

 

Juros subiram em setembro para os níveis da crise política

Em 2013, os juros da dívida de Portugal voltaram aos 7,5% em setembro, voltando aos níveis dos quais tinham aliviado após a crise política de julho. Fonte: Bloomberg

Em 2013, os juros da dívida de Portugal voltaram aos 7,5% em setembro, voltando aos níveis dos quais tinham aliviado após a crise política de julho. Fonte: Bloomberg

 

Como se explica que um bater de asas nos EUA, em 2013, ia causando um furacão em Portugal, atrasando o processo de regresso aos mercados, como implicitamente admitiu na altura João Moreira Rato, o então presidente do IGCP? Agora, à medida que caminhamos para o final de 2015, a Reserva Federal, liderada por Janet Yellen, está na iminência de apertar a política monetária com a primeira subida da taxa de juro, que está em zero desde a crise financeira de 2008. A subida dos juros poderá ser anunciada já esta quinta-feira – há uma enorme discussão interna e externa sobre o momento certo – mas, seja já ou daqui a uns meses, é certo que os juros vão subir. O resto do mundo está preparado?

Os investidores e as suas birras

Ao mesmo tempo que colocou a taxa de juro em 0%, em 2008, a Reserva Federal lançou um primeiro programa de compra de dívida pública (e privada) – uma expedição semelhante àquela em que o Banco Central Europeu (BCE) só decidiu embarcar em 2015. Ao imprimir dinheiro para comprar estes ativos no mercado, o banco central contribui para que o preço destes títulos se mantenha alto e, portanto, que os juros implícitos sejam baixos. Esses juros baixos contagiam o resto da economia e criam-se condições para que o Estado, as empresas e as famílias consigam endividar-se de forma mais vantajosa, impulsionando o crescimento.

Viria a ser lançado um segundo programa de estímulo porque, tanto no primeiro como no segundo, a lição que se tirou é que este tipo de estímulo consegue comprimir as taxas de juro na economia em níveis baixos durante algum tempo mas estes voltam a subir assim que se aproxima o final pré-definido do programa. Assim, no final de 2012, a Fed lançou um terceiro programa de compra de títulos com um montante definido de compras mensais de ativos mas sem data para terminar. Daí, infinito. O banco central compraria dívida enquanto achasse que a economia precisava desse impulso. Deixou de precisar, na visão da Fed, cerca de um ano depois, na segunda metade de 2013, e os investidores fizeram uma birra.

 

Ben Bernanke, antigo presidente da Reserva Federal. Foto: Alex Wong/Getty Images

Ben Bernanke, antigo presidente da Reserva Federal. Foto: Alex Wong/Getty Images

 

Os investidores tiveram um tantrum, expressão anglo-saxónica frequentemente usada para descrever as birras das crianças. As taxas de curto e longo prazo voltaram a subir, desde logo nas obrigações federais dos EUA (os Treasuries), e os mercados acionistas caíram numa inversão do movimento que tinha marcado os anos anteriores – em que os investidores, à falta de rendibilidades nos ativos com menor risco, tinham escolhido as bolsas como um local onde, assumindo um pouco mais de risco, se conseguia aplicar a liquidez abundante que Ben Bernanke estava a injetar, todos os meses.

Draghi evitou um furacão na zona euro. Mas o vento soprou noutros locais.

Um bater de asas de uma borboleta, ainda que gigante, em Washington DC não chegou a causar um furacão na periferia da zona euro porque Mario Draghi tinha garantido, meses antes, que faria “tudo o que for necessário, dentro do mandato, para preservar o euro”. Os juros da dívida caíram de forma acentuada na zona euro no início de 2014, porque estes estavam ainda em níveis atrativos e porque era muito provável que a tendência na zona euro fosse de mais estímulos monetários – como se comprovou. Foi, também, nessa altura que as economias da zona euro, incluindo as da periferia, começaram a dar sinais de retoma. Juros de 5% e 6%, neste contexto, rapidamente começaram a parecer algo muito parecido com um almoço grátis. E, portanto, os investidores internacionais compraram e os juros caíram progressivamente.

Rui Bernardes Serra, economista-chefe do Montepio, ouvido pelo Observador, reconhece que os estímulos monetários da Fed foram, “de facto, importantes para a compressão” dos spreads de taxa de juro no sul da Europa. E, em particular, nos casos de Portugal e Grécia, que por força dos seus ratings têm forçosamente uma maior preponderância de investidores mais especulativos, muitos deles baseados nos EUA e no Reino Unido, onde há vários anos estão, também, a decorrer estímulos monetários agressivos. Rui Bernandes Serra destaca, contudo, também, “a atitude do BCE na defesa da moeda única” e “os passos dados em termos de consolidação orçamental nos países da periferia” e, de um modo geral, perspetivas menos negras para as economias.