A meio caminho entre a Ásia do Leste, a Europa Central e a Europa de Leste, é a cidade mais rica da Alemanha e a maior plataforma logística do Norte da Europa. Marinha mercante onde já houve piratas, autómatos onde antes havia estivadores, armadores que querem a bandeira de Portugal nos seus navios.

 

O pai de Claus Kunt era pedreiro, mas Claus viu a onda a chegar. O de Jörg Molzahn, engenheiro. Jörg nasceu numa pequena cidade interior da Alemanha ocidental, perto de Dusseldorf, e só pensava em conhecer o mundo. “Hamburgo nunca seria Hamburgo sem o porto. Faz parte de quem somos”, diz Corinna Nienstedt, directora da Câmara de Comércio de Hamburgo.

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Claus vai-se reformar no fim do ano e voltará muitas vezes a Portugal; a primeira foi em 1976, queria ver o país da revolução e passou a fronteira em Ayamonte. “Estava farto dos espanhóis, falavam tanto.” Um dos melhores amigos portugueses conheceu-o logo aí, no Algarve, mas foi em Azinheira dos Barros que comprou casa. Este ano já foi de bicicleta de Hamburgo até lá, planeou 60 dias, com um amigo, chegara um dia antes do previsto. É o que faz quando não está a trabalhar nem a sambar, no Virada, o grupo que formou na cidade mais rica da Alemanha, a cidade que é um porto e que nasceu do porto para ser tudo o que é.

Claus começou nas agências de navegação, era “um faz-tudo e entrava às 4h da manhã”, viveu em Moçambique, Angola, já foi demasiadas vezes ao Sudão, este ano, mesmo antes da reforma, ainda vai à Papua Nova-Guiné. Quando trabalhou para armadores alemães no Rio de Janeiro conheceu uma brasileira. Não foi logo, mas ela lá veio ter a Hamburgo; em 1986 casaram, ela chama-se Betty, Joana é a filha e tem 27 anos. Jörg é capitão mas desistiu de andar no mar porque não havia relação que resistisse. Fundou a sua própria empresa, com um sócio da área financeira, e hoje passa uma semana a cada duas ou três em Lisboa para conseguir novos navios a viajarem inscritos no Registo da Madeira. Em Hamburgo, deixa a mulher e as duas filhas pequenas, uma entrou agora na primária. Um dia, Jörg vai deixar de ir tantas vezes a Lisboa.

Claus tem 63 anos e vai-se reformar no fim do ano; o capitão Jörg tem 37 e muitos anos de marinha mercante pela frente. Em Hamburgo, o seu escritório fica junto ao porto, a cinco minutos do Fischmarkt, que todos os domingos de manhã se enche de gente da cidade, como sempre, desde sempre. Entre o escritório e o mercado, há um casamento. “As pessoas casam junto ao porto.” Mais à frente. “Este é o primeiro bar da cidade, é um bar de piratas, nunca fechou.” Pelo caminho. “Todos estes edifícios são de empresas da marinha mercante.”

No regresso, pelo mesmo caminho, depois de uma conversa com Thomas Rehder, presidente da Carsten Rehder (e, desde 2011, da Associação de Armadores Europeus), quarta geração da empresa familiar como quase todas da área.

Se insistirmos ainda, conseguiremos lá voltar para o fotografar com o filho? O filho começou noutra empresa, por baixo, já é a quinta geração sem o ser. “Os meus compatriotas são homens rígidos. No fim ele já estava muito descontraído”, responde Jörg.

As vistas da cidade

2Claus vive numa casa de uma cooperativa, paga mais 100 euros de renda do que pagava quando lá chegou, há quase 30 anos. A casa fica na rua que não é uma rua, é uma praça mas tem nome de rua: Fischmarkt Strasse. Da varanda da cozinha vê o porto e o rio. Do seu escritório, no terminal que durante anos foi o mais moderno do mundo e ninguém sabe dizer se já não é, ouve o tempo todo as pás da maior turbina eólica do Norte da Europa; são duas, uma ao lado da outra, mas o barulho é da maior. Claus tem vista da cozinha para o rio e trabalha no terminal dos carrinhos robotizados, que retiram os contentores da pilha e os transportam até aos camiões ou aos guindastes (alguns ainda são operados por gente, é gente que está quase a ter de mudar de profissão, não de área, só de ofício, na HHLA – Hamburger Hafen und Logistik AG, empresa de transporte e logística, ninguém é despedido; Claus sabe disso, é da Comissão de Trabalhadores); dos guindastes, os contentores vão para os comboios que vêm a um ritmo certo. Os comboios são 700 metros de contentores coloridos, se passarem dez minutos e não vier mais um, é porque aconteceu algo grave no porto de Hamburgo.

Claus vê o rio da cozinha mas o seu lugar favorito na cidade é o Skyline Bar 20up, o bar de um hotel, no 20º andar, a cidade que é toda um porto iluminada, a funcionar 24 sobre 24 horas. Um dry Martini a 20 andares do chão, numa zona de Hamburgo especialmente alta, num bar com paredes de vidro de cinco metros de altura a toda a volta não é a melhor das ideias, a não ser que sejamos o Claus, que tem 63 anos e vai trabalhar de bicicleta, uma parte do caminho é de barco, ele e a bicicleta, o resto são uns bons 15km a pedalar, para lá e para cá.

Este ano Claus já só volta a Portugal em Novembro, antes tem vários hectares onde plantar árvores de frutas na casa da sogra (no Alentejo faz azeite), em Niterói. Foi onde nasceu Betty, que estudou no Brasil e quando chegou a Hamburgo, com visto de estudante, decidiu tirar Pedagogia, Estudos Africanos, tem um programa de rádio numa ONG que trabalha com crianças desfavorecidas, alemãs quase todas, calha lá aparecerem filhos de imigrantes também, um ou outro filho de refugiado deve lá ir parar não tarda.

A colecção do Sr. Tamm

Em Hamburgo vivem 1,8 milhões de pessoas, cinco milhões na área metropolitana. O porto antigo, uma parte dele, que não inclui o mais antigo armazém, mas inclui Speicherstadt , Chilehaus e parte do bairro de Kontorhaus, acaba de ser classificado Património da Humanidade pela UNESCO. De fora ficou o tal armazém, onde hoje funciona o Museu Marítimo Internacional da cidade. Uma colecção que um miúdo começou aos seis anos. “Estava com febre e a mãe ofereceu-lhe este barquinho branco. Ele diz que foi assim que começaram os seus problemas, eu sei que ele gosta dos seus problemas”, diz Gerrit Menzel, o historiador do museu, um dos guardiões da colecção Peter Tamm, o menino de seis anos que agora é um senhor curvado que encontrámos por acaso na loja do museu.

A maior colecção privada de artefactos marítimos chegou a esta casa em 2008 e agora está exposta em nove “plataformas marítimas”, em 2003 já era propriedade de uma fundação não lucrativa. É preciosa. Por tudo, pelo amor do senhor Tamm, pelo cuidado de Gerrit, pelos senhores que ocupam uma sala onde reparam modelos e com os quais se pode conversar ou então só a ver, trabalho de paixão, mãos firmes e paciência infinita. Está lá o Vasco da Gama e o Fernão Magalhães, mais o modelo do porto de Bremen e o de Hamburgo que ainda vai demorar anos a acabar (o senhor que o está a fazer já tem mais de 70). Também há um porta-contentores em Lego, com bonecos que vão aparecendo e desaparecendo, o fantasma, o Darth Vader … Trabalhar aqui só pode ser uma alegria e um prazer.

O senhor Tamm recomenda os livros da loja, são todos em alemão mas têm fotografias da história do porto, da história de Hamburgo e da sua história. Gerrit recomenda tudo.

O primeiro cruzeiro

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Os números de visitas deste museu contam um bocadinho do que tem sido a evolução de Hamburgo enquanto destino turístico. “Eu costumava ir a Munique e via lá aquelas turistas todos… E só pensava, como é que é possível? Hamburgo tem tanto mais, e não temos turismo.” Agora, Hamburgo já tem turismo que não pára de crescer. Os cruzeiros são uma parte dessa história. E é numa visita ao museu que se descobre que foi Albert Ballin (1857-1918), magnata da marinha de Hamburgo, o inventor do conceito. Primeiro, pegou no Augusta Victoria e decidiu enchê-lo de ricos e largá-los 53 dias no Mediterrâneo; nove anos depois, nascia o Princess Victoria, “o primeiro navio construído com o objectivo único de funcionar como cruzeiro”.

Hoje, 60% dos visitantes do museu da colecção Tamm são estrangeiros; 30 a 40% vêm de fora da Europa, principalmente da Ásia. Em 2013, Hamburgo foi o primeiro porto alemão a alcançar a marca dos 500 mil passageiros numa só época, com 178 cruzeiros a passarem por cá. Desde Junho deste ano, novas instalações permitem gerir 6000 a 8000 passageiros em dez horas de chegadas e partidas. O Queen Elizabeth e o Queen Mary II vivem praticamente em Hamburgo. Os cruzeiros geram impacto económico e energia – alimentam-se de geradores, que eles próprios alimentam, o que sobra fica na cidade.

O tijolo vermelho

4Hamburgo são canais e mais canais, pontes e sina