Aos 78 anos, Alexandre Soares dos Santos é uma espécie de voz dos empresários tanto como presidente do conselho de curadores da Fundação Francisco Soares dos Santos, como chairman da Jerónimo Martins, uma das maiores multinacionais portuguesas, e de que é o principal accionista.

Na sua carreira atravessou tempos de grande prosperidade, mas também épocas críticas, em que a própria empresa viveu tempos difíceis. Por isso os seus conselhos revestem-se de serem baseados na experiência de gestão e na sua capacidade de reflexão.

Os gestores em Portugal vivem uma recessão há cinco anos, dois anos dos quais com um programa de austeridade muito intenso. Quais são as principais competências que os gestores/empresários têm de ter e/ou mostrar nestas circunstâncias?

Os tempos de recessão e dificuldades são, por excelência, aqueles que mais põem à prova a robustez dos líderes. Entre as muitas competências de gestão e liderança necessárias para conduzir pessoas em circunstâncias de incerteza e de necessidade de sacrifícios, salientaria a integridade, a visão estratégica e a coragem. Integridade porque é preciso falar verdade às pessoas, ser transparente acerca da dimensão e da profundidade dos problemas e do que é preciso para sair da crise. Visão estratégica porque é fundamental ver a árvore sem perder de vista a floresta, ao mesmo tempo que é preciso sobreviver no curto prazo sem comprometer a capacidade da empresa ser sustentável no futuro. Coragem porque não acredito em verdadeira liderança sem a ousadia e a firmeza de decidir pelo Bem do maior número de pessoas, mesmo quando isso implique sacrificar a parte para salvar o todo.

No seu entender quais são, de uma forma genérica, os principais atributos e os principais defeitos dos gestores/empresários portugueses?

O tecido empresarial português, na sua maioria, é constituído por micro e PME, o que me parece que demonstra bem o espírito empreendedor, e até a criatividade, que existe em Portugal. Os empresários portugueses são trabalhadores e capazes de fazer grandes sacrifícios pessoais pelas suas Companhias. A meu ver, no entanto, beneficiariam se se fechassem menos, se comunicassem mais entre si, se partilhassem experiências e melhores práticas. Isto permitiria não apenas o encurtamento de curvas de aprendizagem como também a agilização da defesa da iniciativa privada em Portugal.

Quais foram as maiores transformações no trabalho de um gestor nos últimos 20 anos?

A grande transformação passa pela globalização – o mundo passou a ser muito mais pequeno agora que as distâncias se encurtaram tanto – e pela quantidade de informação quase instantaneamente disponível que as novas tecnologias, em particular a internet, vieram introduzir. O acesso à informação está muitíssimo mais facilitado e democratizado, o que, em grande medida, agiliza e robustece o processo de tomada de decisão. Por outro lado, a velocidade a que tudo acontece obriga-nos a viver a um ritmo muito acelerado, a que já nos habituámos, mas que poderá não ser sustentável no longo prazo.

 

Fonte: Negócios

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