Steen Jakobsen diz que o “mercado de acções vai despertar em breve” e alerta para bolha no ‘high yield’.
O responsável pela estratégia de investimento do Saxo Bank diz que a política monetária não está a ajudar a economia real e descredibiliza os mais recentes testes de ‘stress’ à banca europeia.
Quais são os principais riscos para a economia mundial num futuro próximo?
A desinflação/deflação continua a ser o principal risco económico. Sabemos que quando a inflação atinge níveis demasiado baixos os danos económicos podem ser consideráveis, uma vez que os privados e as empresas suspendem a aquisição de bens e eventuais novos investimentos. Além disso, num mundo onde a criação de crédito corresponde a 75% do crescimento total, a inflação baixa acaba por funcionar como um imposto sobre a dívida, o que dificulta o seu reembolso.
Qual é a sua estratégia de investimento tendo em conta esses riscos?
Mantenho a mesma posição desde o quarto trimestre de 2013: os juros soberanos vão atingir novos mínimos. As obrigações alemãs a 10 anos ficarão nos 0,5% e as norte-americanas em 1,25/1,50%. O desempenho dos títulos de rendimento fixo será muito superior ao das restantes classes de activos e penso que a recta final do quarto trimestre e o ano de 2015 serão difíceis para os activos alavancados, como é o caso dos mercados accionistas.
Considera que os mercados mundiais estão sobrevalorizados?
Os mercados de acções vão despertar em breve e perceber que o lucro cresceu três vezes mais do que as vendas. Não é obviamente natural que esta situação se mantenha. O mercado dos EUA deverá, aliás, ter ‘feedback’ negativo de um dólar mais forte, uma vez que 46% das vendas no S&P são feitas em moeda estrangeira. Além disso, existe uma pequena bolha nas obrigações de alto risco emitidas por empresas e negociadas a ‘spreads’ inferiores ao ‘dividend yield’ do S&P 500.
Acha que a Fed tomou a decisão certa ao pôr fim aos estímulos económicos num momento em que a economia mundial ainda se encontra fragilizada?
Em teoria, a redução gradual do estímulo é um exercício em que se ajusta o dinheiro impresso à dimensão do défice orçamental. Nesse sentido, a resposta é sim. O problema é que a Fed está a fazer um mau trabalho em termos de comunicação e, por isso, os mercados vêem o fim do estímulo como um sinal de juros mais altos nos EUA. A probabilidade de ocorrer uma subida de 25 pontos base em Junho de 2015 passou de 30% para perto de 50% no último mês. Acho que a explicação reside mais na péssima comunicação do que no fim do programa, que teria sempre de acontecer.
O que pensa da resposta actual do BCE com o objectivo de estimular a economia da zona euro? É suficiente?
Longe disso. O BCE e todos os bancos centrais continuam a dizer que a política monetária pode fazer maravilhas pela economia real quando, na verdade, só suporta 20% da economia, ou seja, as empresas cotadas em bolsa, os bancos e as empresas estatais com custos de financiamento artificiais, 200 a 400 pontos base abaixo do preço ‘standard’ do ciclo económico. Os restantes 80% da economia – as PME – continuam a ter 0% de crédito e 0% de capital político, embora sejam elas que criam 100% dos novos postos de trabalho. Por outras palavras, as empresas cotadas em bolsa passam a ser subsidiadas pelas PME, que assim contribuem, ainda que indirectamente, para o aumento do desemprego, a baixa produtividade e maiores valorizações bolsistas.
Como é que avalia os resultados dos recentes testes de ‘stress’ aos bancos europeus? Acha que foi um exercício credível? Pensa que a supervisão do BCE evitará novas falências?
Os testes de ‘stress’ não foram mais do que “um agradável passeio no parque”. Não havia um cenário de deflação; o cenário deficitário apresentava perdas totais na ordem dos 265 mil milhões de euros num balanço de 22.000 mil milhões de euros – ao qual dificilmente podemos chamar “deficitário”. Desejo boa sorte ao BCE no seu novo mandato regulatório, mas estou convencido, tal como aconteceu no passado com testes de ‘stress’ semelhantes, de que muitos bancos que “passaram” neste teste acabarão por falir nos próximos dois anos quando a Europa mergulhar novamente na recessão.
Fonte: Económico