Depois das manifestações populares em junho, o BRIC latino-americano viu-se a braços com a desvalorização do real e a subida dos juros da dívida. Marcelo Kfoury, do Citi, explica porquê.

O Brasil regressou, recentemente, à primeira página, não em virtude da irrupção de manifestações populares massivas, mas devido ao choque de uma fuga de capitais de quase 10 mil milhões de dólares entre final de maio e final de agosto e de uma subida das yields das obrigações a 10 anos para quase 12% no mercado secundário da dívida.

Depois das ondas de choque provocadas pelo anúncio da alteração da política monetária da Reserva Federal norte-americana (Fed) em maio e do pico das manifestações populares em junho, o BRIC latino-americano viu-se obrigado a uma intervenção do seu Banco Central em 22 de agosto, que ajudou a inverter a queda significativa do índice bolsista Bovespa e a desvalorização acentuada do real. O Banco Central do Brasil decidiu regressar a uma “ração diária” de leilões de swaps que totalizará 37 mil milhões de dólares até final do ano e de venda de dólares até um montante de 20 mil milhões de dólares até 31 de dezembro. Em termos anualizados, o índice da Bolsa de São Paulo caiu 14,07% e o real desvalorizou-se 18% em relação ao euro. BRIC é o acrónimo criado por Jim O’Neill, da Goldman Sachs, para o grupo formado pelo Brasil, Rússia, Índia e China.

Segundo os Indicadores Compostos Avançados da OCDE, hoje divulgados, verificou-se em julho um crescimento abaixo da tendência para a Indonésia (maior distancia face à tendência), Brasil, Índia e África do Sul (menor distancia), no grupo das economias emergentes que têm estado ultimamente em foco e que, com a Turquia, formam o clube das “cinco mais frágeis” naquele grupo.

O Brasil faz agora parte desse grupo dos “cinco mais frágeis”, sublinha Marcelo Kfoury, chefe do Departamento Económico do Citi em São Paulo. O especialista do Citi adianta, ainda, que poderá haver mais turbulência se o movimento de subida das yields dos títulos do Tesouro norte-americano a 10 anos prosseguir numa trajetória ascendente. Na semana passada, as yields registaram 2,99% no dia 5 de setembro, uma subida significativa desde abril, quando desceram a um mínimo de 1,665% no dia 21. Antes do eclodir da crise financeira em finais de 2008, as yields das US Treasuries estavam próximo ou acima de 4%.

Qual é a avaliação da eficácia das medidas recentes tomadas pelo Banco Central?

O aumento das intervenções do Banco Central (BC) no mercado de câmbios e o anúncio em 22 de agosto de um programa de leilões de swap cambial e de venda de dólares com compromisso de recompra tiveram como objetivo sinalizar que o BC fornecerá liquidez aos agentes económicos contribuindo, dessa forma, para reduzir a volatilidade da taxa de câmbio. Essas medidas, e o fato de o Brasil ter um nível elevado de reservas de cerca de 370 mil milhões de dólares, ajudam a evitar uma depreciação cambial mais brusca, mas não alteram a tendência, que é determinada pelos fundamentos internacionais e domésticos.  O Banco Central tem também aumentado os juros básicos para conter as pressões inflacionistas, mas por enquanto essa medida ainda não surtiu efeito, devido à própria desvalorização do câmbio que afeta as expectativas de inflação. A política orçamental expansionista também tem prejudicado o combate à inflação.

A situação foi motivada sobretudo pelo anúncio, em maio, da alteração da política monetária da Fed norte-americana, ou tem razões endógenas ao Brasil?

A expectativa de alteração da política monetária pela Fed tem tido um efeito importante sobre os preços dos ativos brasileiros. No entanto, acreditamos que o agravamento dos fundamentos domésticos também tem tido um papel importante e explica o fato de o real estar entre as moedas que mais se depreciaram desde maio, quando os títulos do Tesouro norte-americanos começaram a subir. Desde novembro do ano passado, o prémio de risco do Brasil, medido pelos contratos de credit default swaps a cinco anos, começou a descolar do prémio de risco do México e do Peru e passou a caminhar juntamente com os prémios da Rússia e da Turquia, países com fundamentos económicos piores. Esse movimento reflete o agravamento dos fundamentos económicos domésticos do Brasil, que incluem baixo crescimento, inflação elevada, política orçamental expansionista, com consequente agravamento das contas públicas e, mais recentemente, com a deterioração das contas externas.

A situação do Brasil é tão grave como a que está afetar a Índia, a Indonésia, a África do Sul e a Turquia?

Esses cinco países desvalorizaram mais do que os outros, e estão a ser apelidados de “The Fragile Five” – os cinco mais frágeis.  Até agora, durante este ano, a desvalorização do real face ao dólar foi de 14% contra 19% da rupia indiana, 17% do rand da África do Sul e 15% da rupia indonésia. Só a lira da Turquia desvalorizou menos do que o Brasil, 12%. Alguns economistas acham que esses países estão a sofrer mais devido a altos défices da sua conta corrente.  O Brasil e a Índia têm défices menores na conta corrente, mas registram uma maior dívida bruta.

Há o risco de uma repetição de uma onda de crises em economias emergentes na América Latina e na Ásia, ou esse cenário mais pessimista não tem probabilidade elevada?

Essa situação pode continuar com o aumento da taxa de juros de longo prazo dos Estados Unidos, o que pode fazer com que mais capital volte para os Estados Unidos e saia dos países emergentes. E os que tiverem piores fundamentos económicos poderão sofrer mais. A taxa de juros dos títulos a 10 anos do Tesouro norte-americano era de 1,7% em maio e agora está em 2,9% no mercado secundário. Mas uma medida de equilíbrio de longo prazo para esse título apontaria para cerca de quatro por cento. Não consigo quantificar o risco, mas, se pensarmos no quanto as moedas já mexeram com o começo desse movimento, pode haver ainda mais turbulência.

Que pode esperar o Brasil do G20 em termos de uma travagem do contágio negativo da alteração da política monetária da Fed?

Não vejo nada que o G20 possa fazer sobre essa questão para amenizar o contágio da politica monetária da Fed. As repercussões do G20 no Brasil foram maiores sobre a questão da Síria e do caso de espionagem envolvendo os EUA e o Brasil.

É de esperar alguma ação conjunta dos BRICS na sequência do apelo da Índia?

O novo presidente do banco central da India, Raghuram Rajam, anunciou uma serie de medidas para atrair capital para a India e liberalizou os mercados financeiros e o setor bancário. Isso deverá ser mais positivo do que a ação dos BRICS.

Os BRICS decidiram em cimeira anterior criar um Fundo de Reserva de 100 mil milhões de dólares para intervir contra a volatilidade cambial. Esse fundo entrará em ação agora que a crise atingiu quatro dos BRICS?

O anúncio de avanços na criação do Fundo pode ter tido algum impacto positivo sobre as moedas dos BRICS, uma vez que pode contribuir para amenizar crises mais graves. Esta semana, as moedas dos BRICS apreciaram, apesar de, no conjunto do ano, estarem a acumular uma depreciação entre 10 e 15%. No entanto, o resultado mais fraco no emprego dos Estados Unidos [divulgado no final da semana passada] deve ter sido mais relevante para o fortalecimento das moedas dos emergentes.

 

Fonte: Expresso

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