A crise económica e financeira que arrasou a Europa afugentou a maioria dos investidores, mas os chineses não se deixaram impressionar. Precisamente nos piores períodos, os investidores chineses apostaram milhões no velho continente, incluindo em alguns dos países mais afetados. Foi o caso de Portugal. Desde 2011, as empresas chinesas já investiram 4,3 mil milhões de euros em Portugal.
O pico de investimento foi notório. Se, em 2010, o investimento chinês na União Europeia era apenas ligeiramente superior a 6,1 mil milhões de euros (menos do que na Índia, Islândia ou Nigéria), no final de 2012, um estudo do Deutsche Bank dava conta de que este montante já tinha quadruplicado, para quase 27 mil milhões de euros. Até hoje, e desde 2006, dados recolhidos pelo think tank norte-americano The Heritage Foundation mostram que o investimento chinês em toda a Europa ultrapassa os 96 mil milhões de euros, tendo os valores aumentado substancialmente desde o início da crise, em 2008.
São as privatizações e fusões, práticas recorrentes nos países mais afetados pela crise, que explicam o comportamento chinês. “Foram, em parte, compras oportunistas, já que os ativos estavam baratos”, explica ao Financial Times um especialista em investimento chinês da consultora Rhodium Group. Por outro lado, acrescenta, “foi uma mudança na estrutura secular do investimento externo dos chineses, passando de uma aposta em recursos naturais de países em desenvolvimento para a aquisição de marcas e tecnologia dos países desenvolvidos”.
Entretanto, o investimento anual tem vindo a cair face aos picos verificados em 2011 e 2012, mas os analistas europeus preveem grandes negócios e sinais de que o investimento irá ainda aumentar significativa e consistentemente durante a próxima década. Liao Qun, economista chefe do Citic Bank, antecipa que o investimento da China no estranegiro venha a ultrapassar os 200 mil milhões de dólares até 2017, prevendo que uma fatia significativa desse montante se destine à Europa.
Privatizações e imobiliário atraem
Em Portugal, são as privatizações da EDP, da REN e da Caixa Seguros que representam a grande fatia do investimento chinês.
Foi a Three Gorges State Grid que deu o primeiro passo, em 2011, com a privatização da EDP. A energética estatal chinesa pagou 2,69 mil milhões de euros por 21,35% da EDP, deixando pelo caminho a alemã E.On e as brasileiras Eletrobras e Cemig.
Em 2012, foi a vez de a State Grid, a companhia nacional da rede elétrica da China, adquirir 25% da REN por 387,15 milhões de euros, tornando-se na maior acionista da gestora da rede energética portuguesa.
Já este ano, o executivo de Passos Coelho vendeu, por mil milhões de euros, 80% da Caixa Seguros (incluindo a Fidelidade e a Multicare) à Fosun International, que assim bateu o fundo de private equity norte-americano Apollo. Entretanto, a oferta pública de aquisição que a Fidelidade lançou pela Espírito Santo Saúde já é dada como vencedora, aumentando assim a lista de empresas detidas por chineses.
Estes três negócios renderam a Portugal mais de 4 mil milhões de euros. Mas nem só de privatizações se fez a aposta dos chineses e, ao todo, a The Heritage Foundation estima que a China tenha investido 4,3 mil milhões de euros em Portugal desde 2011 até hoje.
Não é fácil contabilizar ao certo o montante investido – se, por um lado, o governo chinês não segue a atividade das subsidiárias offshore das empresas nacionais, por outro, a própria Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa refere que os investidores chineses “não falam muito” – mas há sectores pelos quais se sabe que os chineses têm particular apetite.
É o caso do imobiliário. Nos primeiros nove meses do ano, 23% dos cerca de 75 mil imóveis transacionados em Portugal foram para estrangeiros, segundo dados hoje divulgados pela APEMIP. Ao todo, os estrangeiros compraram 17300 imóveis entre janeiro e setembro e, desses, 3178 foram comprados por chineses. A China é, assim, o segundo país a investir mais em imobiliário em Portugal, sendo apenas ultrapassada pelo Reino Unido.
Luís Lima, presidente da APEMIP, prevê que, até ao final do ano, o investimento total de estrangeiros em imobiliário em Portugal venha a ser de 2 mil milhões de euros. A China representa 18% do total de imóveis vendidos a estrangeiros, mas o seu peso neste montante será superior a 18%, já que a média que investe em cada imóvel é de 500 mil euros, muito acima, por exemplo, dos franceses, que investem, em média, 200 mil.
Ao mesmo tempo, a China representa 80% das autorizações de residência concedidas no âmbito do programa Vistos Gold, que já rendeu a Portugal 950 milhões de euros até setembro.
Imóveis que deem algum tipo de rendimento, como prédios degradados para reabilitar ou escritórios para depois vender ou arrendar, têm sido a grande aposta dos chineses no que ao imobiliário diz respeito.
Tecnologia é entrave
A China continua, porém, a enfrentar obstáculos para investir na Europa. Um dos maiores é o facto de os europeus não estarem dispostos a vender aos chineses as suas tecnológicas de topo, sendo este o sector de maior interesse para a China.
Já um estudo recente da Câmara de Comércio da UE na China deu conta de que as empresas chinesas considera as leis laborais, os custos com os recursos humanos, as leis de imigração e as diferenças culturais como os maiores obstáculos para operar no continente. Mas o mesmo estudo refere que a quase totalidade (97%) das empresas chinesas que já investiram na Europa diz planear investir mais nos próximos anos.
fonte: Dinheiro Vivo