Embora se acredite que o número de chineses em Portugal possa chegar a 20 mil cidadãos, com os imigrantes não registados, os Censos de 2011 indicam que há oficialmente mais de 11 mil residentes chineses no país, uma subida de 427% face a 2001. Foi o segundo grupo de estrangeiros a residir em Portugal que mais cresceu, a seguir aos romenos: em dez anos ultrapassou o número de espanhóis em Portugal (cerca de 10 mil).
O comércio a retalho e grossista e a restauração são os principais sectores onde os chineses têm negócios: 43% são vendedores em lojas, 22% são patrões no comércio e 9% são cozinheiros.
E se começaram com os restaurantes apostando na exótica comida chinesa e com lojas de pechinchas, a crise obrigou-os a adaptarem-se. “Depois de estarem em Lisboa e Porto, houve uma tendência de descentralização, de abrir negócios em cidades de menor dimensão. Com a crise, regressaram aos grandes centros”, explica Miguel Santos Neves, do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais, que tem investigado a presença chinesa em Portugal.
Sair do comércio étnico
Além disso, mudaram de ramos: os menus dos restaurantes passaram a ter sushi e o comércio apostou na venda de frescos. “O negócio das frutarias é uma das respostas à crise”, realça o professor universitário. “Mostra a saída da economia étnica. No passado, todos os sectores onde estavam envolvidos tinham fornecedores chineses, com fortes relações dentro da comunidade. No sector das frutas e legumes vão directamente a produtores portugueses”.
Mas a crise e as recentes aquisições feitas em Portugal tiveram outros efeitos: “O primeiro foi a reestruturação da comunidade de negócios chinesa tradicional, que está em Portugal há mais tempo e não é homogénea. Outro efeito é o surgimento de mais segmentos. Além das microempresas, com negócios familiares de pequena dimensão, há agora as grandes empresas e os investimentos estatais e privados”. E, segundo o investigador, já começam a surgir relações entre estes dois níveis: “Para os movimentos de quadros dessas empresas, estão a contratar preferencialmente uma ou duas agências de viagens chinesas que operam em Portugal”.
Com a entrada no imobiliário e a criação de empresas para ter o visto Gold “há potencial para aparecer um núcleo de empresários chineses de média dimensão. Teremos uma comunidade mais complexa”.
Essa complexidade começou com dois nomes: China Three Gorges e State Grid, colossos estatais chineses que protagonizaram grandes investimentos de capital na EDP e REN. Depois veio a armada financeira, os bancos ICBC e o Bank of China. Mais recentemente, o fundo Fosun comprou os seguros da Caixa Geral de Depósitos.
Duas realidades
Estas grandes empresas devem formar uma associação e representar a nova face do império comercial em Portugal. Reflectem a abertura da economia chinesa ao exterior e o desejo de consumo de uma classe média crescente, num país com quase 1,4 mil milhões de pessoas.
Contribuindo para reduzir a dívida pública com a aquisição de empresas públicas, os chineses dominaram metade das privatizações, onde já investiram mais de quatro mil milhões de euros.
Somam-se os que têm comprado casas em zonas bem localizadas. E os turistas, cujos 26 milhões de receitas geradas até Outubro do ano passado ultrapassaram o total de 2012. Hoje, são todos estes chineses, ávidos de luxo, que percorrem a Avenida da Liberdade e os centros comerciais em busca de marcas conceituadas e caras. Que querem ter activos fora da China para diversificarem o risco dos investimentos.
Contrastam com a realidade dos chineses tradicionais no país, espelhada num estudo recente do Banco de Portugal: entre os trabalhadores estrangeiros em Portugal, os chineses eram os que ganhavam menos. Recebiam um salário médio de 446 euros, contra a média de 737 entre os empregados não-portugueses e os 873 euros da média nacional.
Fonte: Sol