Dezassete minutos depois das oito da manhã, milhares de cidadãos do estado do Nevada quase mandaram abaixo o site do governo para seguros de saúde. O Nevada Health Link recebeu quase 80 mil visitantes únicos nas primeiras 48 horas, a 1 e 2 de outubro, e o call center atendeu milhares de chamadas de pessoas em desespero.

Foi o início oficial do programa conhecido como Obamacare, que a partir de 1 de janeiro de 2014 vai permitir a milhões de norte-americanos pobres o acesso a seguros de saúde que nunca tiveram. E tudo foi gerido pela Xerox.

A empresa que se tornou sinónimo de fotocopiadoras e impressoras ganhou o projeto de 72 milhões de dólares (52 milhões de euros) para gerir a infraestrutura do site onde os habitantes do Nevada podem inscrever-se, para saber se têm direito a ajuda estatal no âmbito do Obamacare, e o call center que responde às chamadas telefónicas e dúvidas dos cidadãos. Na terceira semana de outubro, o site já tinha processado 14592 candidaturas completas e registou perto de 39 mil contas no Nevada Health Link.

“Neste momento estamos a ajudar o governo norte-americano a implementar o Obamacare. As pessoas vão registar-se para um seguro e em vários Estados trabalhamos com parceiros para fornecer o HIX – Health Insurance Exchange, onde os cidadãos podem ir ao site e ver se têm direito a subsídios”, explica ao Dinheiro Vivo Sophie Vandebroek, diretora de tecnologia e presidente do grupo de inovação da Xerox. “A Xerox fornece a infraestrutura de tecnologias de informação em vários Estados. É um desafio.”

Mas não é o primeiro projeto da empresa neste sector. Na verdade, a área da Saúde é uma das mais importantes para a Xerox neste momento. A empresa processa uma parte significativa dos pagamentos Medicaid (o programa de assistência de saúde que já existia nos EUA), dos pagamentos de seguradoras e também de farmácias.

Na Europa, no centro de investigação de Grenoble, França, está a trabalhar em colaboração com hospitais e universidades europeias para identificar o surto de infeções hospitalares com antecedência. É um sector vital na “nova” Xerox, que arranjou novos mercados para contornar a queda no seu antigo ‘core business’ e já encaixa 55% das receitas a partir da gestão de processos de negócio em áreas como Saúde e Transportes.

“Nos últimos dez anos investimos muito mais no negócio dos serviços e entrámos de forma agressiva”, conta Vandebroek. “Somos sinónimos de cópia. Temos uma marca tão forte que quase se torna um obstáculo”, reconhece, embora as coisas estejam a mudar rapidamente. Em 2017, a Xerox prevê que 75% das receitas venham destes serviços. Neste momento, tem 40 mil empregados dedicados a ‘customer care’, que atendem 1,5 milhões de telefonemas por dia em nome dos seus clientes – todo o tipo de empresas, desde operadoras de telemóveis a supermercados, hospitais e serviços de administração local.

O centro de investigação de Grenoble é um espelho desta modificação radical da empresa. No início de outubro, a Xerox assinalou o vigésimo aniversário do centro com um evento em que demonstrou algumas das inovações em que tem estado a trabalhar. Praticamente todas são surpreendentes, porque a última coisa de que se estava à espera vinda da Xerox era um sistema de controlo de estacionamento com sensores no chão em Los Angeles ou reconhecimento de matrículas com extração de imagens. São tecnologias que se integram nos serviços de “smart cities” da Xerox, que competem na linha da frente com outras gigantes do sector, como IBM e Siemens. “Estamos em 34 países a fornecer infraestruturas de cidades inteligentes. Processamos 34 mil milhões de transações por ano, a gerir carros nas autoestradas, estacionamentos, extraímos a informação e ajudamos as autoridades a criar uma cidade menos atolada e mais sustentável”, resume Sophie Vandebroek.

O sistema em Los Angeles é um dos melhores exemplos. A Xerox ganhou o concurso para desenvolver uma solução à medida para a cidade californiana, em que 30% do trânsito era gerado por pessoas à procura de lugar para estacionar. “Instalámos 7 mil sensores em buracos no chão e criámos um sistema para gerir a informação”, explica ao Dinheiro Vivo Onno Zoeter, cientista sénior da Xerox. O programa foi feito para o Departamento de Transportes de Los Angeles e inclui uma aplicação que as pessoas podem descarregar para o smartphone – ou aceder online – para verem um mapa em tempo real dos lugares de estacionamento disponíveis. Podem pagar o parquímetro via telemóvel e pôr mais “moedas” se o tempo de permanência for além do que previam. “Isto combina todos os dados recolhidos pelos sensores e parquímetros”, adianta Zoeter, dados estes que vão permitir à cidade identificar as áreas problemáticas e alterar os preços para obrigar as pessoas a distribuir-se por mais zonas.

Outro projeto que está a ser testado em Grenoble é o de identificação de matrículas por imagem e não por infravermelhos, como é habitual. “Os sistemas correntes de reconhecimento de matrículas têm uma taxa de erro elevada, de 10%”, revela José-Antonio Rodriguez-Serrano, da Xerox. “Em vez de ler as letras e números, o nosso sistema extrai uma imagem. É como um teste de ADN – não sabemos a quem pertence, mas conseguimos corresponder duas amostras.” Reduz os erros em 60%, é 5 a 10 vezes mais barato e pode ter vários usos, desde controlo em parques de estacionamento fechados, áreas reservadas, tráfego, portagens e até deteção de fraude ou carros roubados.
“É o tipo de trabalho que fazemos hoje”, resume Sophie Vandebroek. E é extenso. Vai da Saúde aos Transportes e às instituições financeiras, passando por coisas tão curiosas como o serviço de auto-publicação, para que qualquer pessoa possa editar o seu livro.

A chave é esta: como ajudar os clientes a tomar as decisões de negócio corretas? “Eu chamo-lhe análise prescritiva. Prescrevemos, por exemplo ao presidente da Câmara quantos autocarros pode dispensar ou de quantos espaços de estacionamento precisa.” A Xerox tem centros de investigação em cinco países, e com um pesado investimento em inovação, consegue 30 patentes por semana.

 

Fonte: Dinheiro Vivo

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