O relatório da OCDE que foi conhecido esta semana é um oásis de informação pertinente.
Desde logo coloca sem margem para dúvidas Portugal fora de um regresso aos mercados. Ao referir uma taxa igual ou superior a 6% nas obrigações a 10 anos para 2014/15.
Na dimensão da dívida dá conta de um aumento até aos 140%, o que contrasta como a tese do governo de uma redução. Identifica diversos riscos financeiros, a taxa de juro menos crescimento é um dos mais importantes indicadores no qual temos o 2º pior resultado com 6.8%, que é 3.5 vezes o da Irlanda.
A importância é simples: caso o juro pago seja demasiado grande versus o crescimento, então o país entra numa espiral deficitária em que o crescimento é insuficiente para cobrir os juros sem criar nova dívida. Como padrão um estudo do FMI indica o valor de 0.8% como máximo aconselhado.
O documento desmonta igualmente a falácia sobre a sustentabilidade futura da dívida ao indicar ser necessário um saldo primário superior a 5% de 2014 a 2023, o que contrasta com os 2.8% previstos pelo FMI para 2018, ou seja, nem daqui a cinco anos atingiremos esse objectivo.
Na pag. 69 uma lição, a prova que a redução dos custos do trabalho não se obtém prioritariamente através da redução de ordenados mas sim através da competitividade, razão pela qual Japão, Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha obtiveram reduções de custos bastante significativas nos 46.2%, 25.9%, 20.4% e 14.6% respectivamente. Ao invés, Portugal registou um acréscimo de 0.5% no período em análise de 2000 a 2013.
Por último, o motivo para o título deste artigo de opinião é que não obstante 95% dos investidores, bancos de investimentos, agências de Rating e economistas afirmarem que Portugal não conseguirá ir aos mercados precisará de um programa cautelar/2º resgate, o governo continua a insistir que tal não será necessário.
Para que tal não aconteça pode estar planeada uma perigosa e insustentável estratégia, que para os próximos anos consiste em emitir pouca quantidade de dívida a 10 anos pagando juros na ordem dos 5.7%, semelhantes aos da última emissão, e contratar a maioria das necessidades de financiamento a um prazo curto que poderá ir até aos 2 anos.
É que nas maturidades curtas Portugal não tem grandes problemas em arranjar compradores e os juros pagos são bastante inferiores, na casa dos 1.5% a 12 meses. Ora tal como noticiado ontem pelo Económico foi exactamente isso que se já se passou este ano, a dívida com maturidade de médio-longo prazo reduziu e aumentou a de curto prazo.
Portanto não será de estranhar que num futuro surrealista Portugal não peça cautelar nem segundo resgate, mas sendo certo que iremos estar constantemente com a corda na garganta e a viver de ano para ano com necessidade de angariar mais de 20% do PIB em dívida de curto prazo. Tal pode adiar o problema mas é no mínimo irresponsável. O plano B é termos a possibilidade de recorrer a um cautelar como escapatória para um insucesso.
Resumindo, a dívida nos moldes actuais é insustentável e os mercados demonstram isso com juros actuais de 6%. Contudo tal pode ser evitado por algum tempo, o enorme risco está identificado nas palavras do prof. Adriano Moreira, “O imprevisto está à espera de uma oportunidade”.
* Marco Silva, CEO da MTT – Investment Consultants
Fonte: Económico