O novo CEO da Peugeot Citroën é um gestor ambicioso e que planeia os dias de trabalho ao segundo. Experimenta sempre os modelos da marca que lidera, mas também os dos rivais. Para aliviar do stress conduz carros de corrida.

Quando Carlos Tavares tomar o controlo da PSA Peugeot-Citroën, em Janeiro de 2014, a administração da marca francesa deve estar preparada para trabalhar a um ritmo alucinante. O presidente executivo (CEO) português, conhecido por ter “combustível nas veias”, é obcecado por objectivos e planeia tudo ao milímetro. “Gerir o tempo é um dos maiores desafios”, confessou o gestor numa entrevista ao Diário Económico, em 2011.

O dia de trabalho em França será passado em reuniões. O gestor chega a ter dez marcadas num só dia e o tempo não pode derrapar um segundo. Normalmente, uma assistente entra na sala dois minutos antes do final dos encontros (que podem ter 25, 30 ou 40 minutos) para avisar que é preciso começar a arrumar as coisas para a reunião seguinte. “Prepara as reuniões meticulosamente e é um negociador forte e preparado”, conta Basílio Horta, ex-presidente da Aicep e actual presidente da Câmara de Sintra. Basílio, que se reuniu várias vezes com o executivo, acredita a fábrica da PSA em Mangualde poderá vir a beneficiar do facto de ter um CEO português. “Poderá ser uma garantia de que, talvez no futuro, haja novos investimentos em Mangualde.”

Carlos, de 55 anos, mantém há muito este ritmo de trabalho. O gestor gosta de entrar no escritório por volta das 7h30 e só sai depois das oito da noite – as refeições, ligeiras, serão feitas no gabinete. Também é normal levar trabalho para casa e até aos fins-de-semana. Mas quando deixa o escritório tem uma regra, que nem o trabalho na Peugeot vai alterar: correr 45 minutos na rua, duas a três vezes por semana.

As viagens continuarão a fazer parte da sua agenda. E o executivo aprendeu a dormir nos aviões como se estivesse em casa. A partir do próximo ano, as deslocações para o continente asiático serão bastante frequentes. É que o grupo está em negociações com os chineses da Dongfeng (companhia chinesa da área automóvel) e com o Estado francês para um reforço de capital e evitar o despedimento de milhares de colaboradores.

É com este método que o executivo vai tentar pôr a marca francesa na rota certa. “Ele é um homem muito ambicioso. Acredito que se ele quer vir para a Peugeot é porque irá mostrar que é capaz de dar a volta à companhia. E isso é bom”, disse Christian Lafaye, porta-voz de um sindicato de trabalhadores da PSA, à agência Bloomberg. Apesar das horas que passará enfiado em gabinetes, Tavares deverá guardar algum tempo para experimentar pessoalmente todos os modelos da marca e até os dos rivais.

‘Little Carlos’ contra ‘Big Ghosn’ 
Na aliança Renault-Nissan, onde era administrador executivo e braço direito do presidente Carlos Ghosn, Tavares era conhecido como ‘Little Carlos’ (o ‘Pequeno Carlos’). Esta era uma alcunha para o distinguir do ‘Big Carlos Ghosn’, o líder do grupo. O problema desta relação profissional de longa data terminou devido à ambição do gestor português. O ‘Little’ queria ser número um e o ‘Big’ não estava preparado para deixar o poder. A convivência entre os dois tornou-se praticamente impossível no Verão, após as declarações de Tavares à Bloomberg.

O executivo afirmou nessa altura à agência norte-americana que há sempre um momento em que um gestor ambiciona ser o líder de uma companhia automóvel global. De acordo com a imprensa, esta frase valeu-lhe o convite por parte de Ghosn (falavam um com o outro em inglês apesar de Ghosn ser brasileiro) para apresentar a carta de demissão, o que veio a acontecer em Setembro.

Para trás ficou uma ligação muito antiga à Renault, onde deu os primeiros passos na empresa em 1981. Mas a influência francesa tem ainda mais tempo. O seu pai, funcionário numa multinacional gaulesa, e a mãe, professora de francês, incentivaram os estudos do jovem Carlos Tavares no Liceu Francês, em Lisboa, e a sua ida, aos 17 anos, para Paris, para se formar em engenharia mecânica numa das melhores escolas de engenheiros do mundo. A ida para França acabou por ser uma viagem sem retorno a Portugal. Além de ter logo entrado na Renault, acabou por casar com uma francesa com quem teve três filhas.

O seu trabalho na marca automóvel francesa não passou despercebido. Ao fim de quatro anos na empresa, já era o responsável pelo desenvolvimento das suspensões para todos os carros da marca. E, em 1991, lidera o projecto que despertou o interesse de Carlos Ghosn: desenhar a plataforma do Clio II, um dos modelos emblemáticos da Renault. O líder da multinacional desafiou-o para gerir projectos cada vez mais relevantes na estratégia da empresa, tal como a segunda geração do programa Mégane e Scenic.

Em 2004, quando a Renault comprou uma posição na Nissan, Ghosn passou um novo ‘dossier’ ao português: gerir as operações da marca nipónica, que estava à beira da falência. Foi o seu passaporte para Tóquio onde vivia desde 2004. Foi nesta cidade japonesa que bebeu um dos ensinamentos mais preciosos da carreira. “É preciso saber respeitar as pessoas”, quer sejam grandes empresários, quer seja o operário da fábrica”, disse o gestor ao Diário Económico, numa entrevista publicada em 2008. Na altura, confessou que deixar duas filhas em França, na universidade, causou-lhe uma certa “apreensão”. No entanto, fez questão de frisar que a ida para Tóquio fez parte de uma “decisão familiar.” Mais tarde, em 2010, mudou-se para Nashville, Tennesse, onde estava como responsável máximo da Nissan para a região das Américas.

A ligação a Portugal pode ficar ainda mais fortalecida. O gestor, que quando as filhas eram pequenas passava férias no Algarve, faz parte do Conselho da Diáspora Portuguesa – organização lançada, há cerca de um ano, com o Alto Patrocínio do Presidente da República, Cavaco Silva. “É altamente positivo para Portugal um português assumir um cargo desta dimensão para apagar aquela imagem do filme ‘Gaiola Dourada’. Os portugueses são vistos como pessoas de altíssimas competências. O Carlos é um deles”, comenta o empresário Filipe de Botton, que é também presidente do Conselho da Diáspora Portuguesa.

A poucos dias de assumir a presidência executiva do grupo PSA, Carlos aproveita para estudar dossiês e fazer desporto. E, claro, começar a preparar o Natal na casa de família, a sul de Paris, com a mulher e as três filhas.

 

Fonte: Económico

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