A fusão da Zon e da Optimus era uma operação condenada a fazer-se, mais cedo ou mais tarde. Acabou por ser mais tarde, anos depois dos primeiros contactos entre Ângelo Paupério, vice-presidente da Sonae, e Rodrigo Costa, o ainda presidente executivo da Zon, uns mais formais, outros mais informais e em sítios mais ou menos discretos, já depois de falhada a Oferta Pública de Aquisição (OPA) da Sonaecom sobre a PT. Desde o final de 2007 até hoje, até ao próximo dia 1 de Outubro, dia da assembleia-geral de accionistas da nova empresa que vai escolher os novos órgãos de gestão, muita coisa mudou. Sobretudo na Zon. Mas este negócio fica marcado, definitivamente, por duas figuras que foram centrais, Ângelo Paupério, um histórico da Sonae, e Mário Leite Silva, um jovem gestor de confiança de Isabel dos Santos. Sem eles, a história continuaria por escrever.
De gerações muito diferentes, os dois gestores têm uma característica em comum: são discretos, raramente falam e aparecem em público ainda menos. Foi assim que, em nome dos respectivos accionistas, acertaram a fusão da Zon e da Optimus.
Para o sucesso das negociações, uma das coisas que não mudou nos últimos anos foi a persistência da Sonae nas telecomunicações, personificada em Ângelo Paupério. Depois da OPA falhada, o que seria uma saída airosa para a Optimus, muitos esperavam que o grupo agora liderado por Paulo Azevedo saísse do sector. Não saiu, ficou, resistiu como pôde, ao poder da PT e da Vodafone. Paupério, vice-presidente da Sonae, e um dos homens mais ouvidos dentro da empresa de Belmiro de Azevedo, nunca desistiu de um negócio que chegou a ter oposição dos accionistas da Zon e onde a influência política era também uma evidência.
Paupério, nascido em 1959, já era um homem de confiança de Belmiro de Azevedo, é agora o braço direito e esquerdo de Paulo Azevedo, o presidente executivo do grupo. Consensual – ninguém o critica, em público ou privado – Ângelo Paupério é licenciado em engenharia civil e começou na EDP. Terá sido o advogado Osório de Castro um dos responsáveis pela sua transferência para a Sonae, onde começou, ironicamente, como director de projectos de televisão. Talvez lhe tenha útil nas negociações para a fusão com a Zon, uma empresa de conteúdos.
Amigos e colegas na Sonae garantem ao Diário Económico que Paupério tem particular orgulho nesta operação. A persistência, a inteligência, a ponderação, e a calma com que lida com os assuntos são qualidades que todos lhe reconhecem e que, neste processo, foram essenciais.
Mas a persistência de Paupério não seria suficiente se, pelo meio, não tivesse acontecido a entrada da accionista Isabel dos Santos no capital da Zon. A operação tem um antes e um depois da entrada da sócia angolana. E é aqui que emerge o outro homem da fusão, Mário Leite Silva, o braço direito de Isabel dos Santos e o homem que conduziu com Paupério todas as negociações.
Natural do Porto, com 40 anos, licenciado em Economia pela Faculdade de Economia do Porto, Mário Silva conheceu a empresária Isabel dos Santos enquanto trabalhava com Américo Amorim. Apontado como um dos homens fortes de Amorim, o economista troca as voltas ao patrão em meados de 2006 e vai trabalhar com Isabel dos Santos, uma decisão que o homem mais rico de Portugal não lhe perdoa, ainda hoje. Apontado como muito activo, empenhado e determinado, Mário Silva assume-se como o homem de confiança de Isabel. Uma articulação que parece funcionar bem tendo em conta as participações accionistas da empresária em Portugal (BPI, Galp, Zon), negócios que tiveram, sempre, o seu dedo.
Discreto, mas ambicioso, Mário Silva é sócio do Futebol clube do Porto, clube do qual o pai foi director de futebol juvenil durante mais de 15 anos. E é, sabe-se, filiado no PSD pelo menos desde os 20 anos, mas aqui, como nos negócios, mantém uma actividade discreta. Sempre a viajar, mantém a mulher e os dois filhos no Porto, mas é possível encontrá-lo tão depressa em Luanda como em Londres, Lisboa ou Genebra.
Ângelo Paupério e Mário Leite Silva são os nomes dos que, nos bastidores, permitiram uma união improvável, entre Paulo Azevedo e Isabel dos Santos, formalizada na equipa de gestão da nova Zon Optimus que assume funções no próximo dia 1 de Outubro.
Fonte: Económico