Quase cinco anos após o começo da crise europeia, os índices disparam perspectivas de recuperação. Mas a luz ao fundo do túnel esconde um monstro no armário

As últimas semanas viram uma onda de optimismo nas manchetes europeias. Falou-se em “luz ao fundo do túnel”, “começo do fim da recessão” e “regresso ao crescimento”.

No entanto, se é verdade que alguns indicadores começam a revelar uma inversão de tendência e a Europa parece ter começado a aprender com erros de um passado recente, também é verdade que a dívida pública – considerado um dos mais importantes indicadores de saúde económica de um país – nos 27 estados continua a subir, de trimestre em trimestre, para valores insustentáveis. Mais grave é o flagelo do desemprego, que parece não mostrar sinais de recuperação, particularmente na população mais jovem dos países do Sul.

ÚLTIMOS DADOS Foram ontem divulgados os últimos indicadores do Eurostat (Gabinete de Estatísticas da União Europeia) relativos ao investimento das empresas e à poupança das famílias nos países da zona euro. Os resultados são mistos.

De acordo com os relatórios do Eurostat, o investimento das empresas baixou de 19,5% no último semestre de 2012 para 18,8% no primeiro trimestre deste ano. No mesmo documento verifica-se uma queda contínua do investimento de empresas do sector não financeiro desde o primeiro trimestre de 2012. Neste campo, portanto, nada de novo.

Ontem o mesmo gabinete estatístico publicou um relatório que revela um aumento da poupança das famílias no primeiro trimestre do ano. Mas a notícia parece melhor do que é. Tendo em conta que a poupança aumentou e o rendimento familiar subiu apenas 0,7% no passado trimestre, o investimento e o consumo caíram 3% nos países da zona euro – a maior queda registada desde o segundo trimestre de 2009.

Também o INE (Instituto Nacional de Estatística) publicou ontem novos indicadores. As conclusões, mais uma vez, são mistas. De um lado as vendas no comércio a retalho na zona euro apresentam uma variação homóloga “menos negativa” de -2,6% para o mês de Julho, quando comparada com os -3,6% do mês anterior. O mesmo comportamento “menos negativo” surge no emprego no comércio a retalho, que diminui 4,8% face ao período homólogo mas sofre um pequeno aumento relativo aos -4,9% do mês anterior.

O INE revela ainda um desaceleramento no índice de produção industrial europeia e uma diminuição do índice de remuneração no comércio a retalho.

De facto, o único balanço positivo parece vir do índice de confiança dos consumidores portugueses, que, por alguma razão, parecem ter recuperado expectativas quanto à evolução do desemprego e da situação económica do país.

PAÍSES A sul, nada de novo. Apesar da inversão da tendência de crescimento do PIB (produto interno bruto) em países como a Espanha e Portugal se mostrar positiva – com Espanha a cair apenas 0,1% no segundo trimestre deste ano e Portugal a apresentar promessas de crescimento económico para o mesmo período – a verdade é que 6 de 47 milhões de espanhóis estão sem emprego e a dívida pública portuguesa permanece a terceira maior dos 27 países. Quanto aos bancos, nem a política acomodatícia do BCE conseguiu evitar que a contracção anual de empréstimos aos bancos pelo sector privado tenha aumentado.

Entretanto, mantém-se a esperança de que a zona euro saia da recessão e volte ao crescimento. A pergunta fica: até onde nos levará o crescimento?

 

Fonte: Jornal i

Comentários

comentários