Há documentos de 2010, classificados como “secretos” e divulgados pelo “Wall Street Journal”, que revelam divisões internas sobre o primeiro pacote de ajuda externa à Grécia. O Brasil avisou que o programa seria insustentável. A Argentina alertou que só se estava a adiar o inevitável. Mas os países europeus e os EUA levaram à aprovação do resgate.

Maio de 2010. O Fundo Monetário Internacional (FMI) aprova a participação no resgate financeiro à Grécia, inundada em problemas financeiros e em máscaras orçamentais. “Sem dúvidas” que o resgate vai funcionar, disse o então presidente do organismo, Dominique Strauss-Kahn (na foto).

Mas a verdade é que as dúvidas existiam. E se já havia pistas para a existência de sérias incertezas quanto ao sucesso do programa, há agora provas que apontam nesse sentido. Para lá da declaração oficial do instituto sedeado em Washington, há minutas e documentos classificados como “secretos” ou como “estritamente confidenciais” que o comprovam. O “Wall Street Journal” divulga esta terça-feira o conteúdo de vários desses documentos.

De acordo com o jornal norte-americano, cerca de um terço dos membros da assembleia de governadores do FMI (que junta os responsáveis do FMI para os países que pertencem ao organismo) levantaram grandes objecções à estrutura de resgate à Grécia que estava desenhada.

Alguns destes países, que representam mais de 40 países fora da Europa, criticaram o facto de os gregos serem os únicos a pagar os encargos com o resgate. Também os credores deveriam ser envolvidos, defendiam vários países, como era o caso da Argentina, que sublinhava a possibilidade de uma reestruturação voluntária da dívida helénica – de forma a torná-la sustentável. O argentino Andrés Pereira alertava que o FMI arriscava-se, ao avançar com o resgate, a “adiar, e talvez agravar, o inevitável”: o incumprimento da dívida grega.

Os responsáveis do Brasil, Rússia, Canadá e Austrália, que representavam outros 38 países, estavam preocupados com os “imensos riscos” do programa. Do Brasil, o aviso foi de que o programa poderia acabar por tornar-se “insustentável”, segundo descreve o “Wall Street”. Os responsáveis da Índia consideravam que a austeridade orçamental exigida à Grécia, como contrapartida da assistência financeira, teria um “custo monumental que a economia dificilmente conseguiria compensar”.

Contudo, os directores dos Estados Unidos e da Europa, que representam mais de metade dos direitos de voto daquela assembleia, conseguiram a aprovação do programa – e ele seguiu em frente.

“Hoje, o FMI demonstrou o seu compromisso de fazer o que for possível para ajudar a Grécia e o seu povo. O caminho em frente será difícil mas o governo desenhou um programa credível que é economicamente equilibrado, socialmente equilibrado – com a protecção dos grupos mais vulneráveis – e alcançável”, indicava anota de imprensa de 9 de Maio de 2010.

Várias têm sido as indicações dadas pelo FMI, agora sob a direcção de Christine Lagarde, de que foram cometidos erros no primeiro resgate à Grécia – um “mea culpa” que levou a um conflito institucional com as instituições europeias.

Depois do primeiro resgate de 2010, a Grécia teve de solicitar um segundo pacote de ajuda financeira externa, além de ter de assumir uma perda do valor da dívida que tinham em carteira. Ao fim de seis anos de contracção económica, o governo de Atenas emitiu novas projecções económicas que apontam para um crescimento económico em 2014.

 

Fonte: Económico

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