Se há produto de que Portugal pode orgulhar-se de ser auto-suficiente é a cerveja. E ainda exporta 300 milhões

Três em cada cinco cervejas produzidas em Portugal são consumidas cá dentro. Duas viajam. Mas não há nada de mal no facto de a cerveja viajar mais do que a média dos portugueses – e cada vez para destinos mais longínquos, como o Brasil ou o Oriente -, antes pelo contrário. É o aumento das exportações que está a segurar os resultados das cervejeiras nacionais e a compensar a quebra do consumo interno.

O programa de austeridade em marcha, o aumento dos impostos e a diminuição do poder de compra são más notícias para o sector. Este ano, até o tempo esteve contra. É preciso ver que a maior fatia do consumo de cerveja, perto de 70%, acontece entre Maio e Setembro. Este ano, o início do Verão tardou. O ano passado, o IVA subiu para 23%. E os dois factores conjugados penalizaram as vendas e alteraram os hábitos de consumo.

Se até há poucos anos o consumo em casa representava cerca de 10% do total, hoje, já só cerca de 67,5% das vendas são feitas fora de casa, através do canal horeca (hotéis, restaurantes e cafés), e 32,5% são consumidos em casa. E esta é uma tendência que deverá manter-se nos próximos anos.

AS MAIORES QUEBRAS Segundo a Unicer avançou ao i, é o canal horeca que regista as quebras mais significativas, apesar de se manter como o principal canal das vendas do sector. Já o canal alimentar tem assumido uma maior importância, já que o consumidor mantém a tendência de transferir o consumo de fora para dentro de casa. Este ano o mercado das cervejas arrisca decrescer entre 10% e 11%, regredindo para níveis de consumo semelhantes aos da década de 1990, um quadro considerado grave.

Senão, vejamos: actualmente, a indústria da cerveja dá trabalho, directa e indirectamente, a mais de 75 mil pessoas, tem mais de 90 mil empresas clientes e 1100 como fornecedores. O sector representa 1,1 mil milhões do Produto Interno Bruto (PIB) e gera, só em receitas fiscais, quase outro tanto: 1039 milhões de euros em 2012. Mas há mais: o processo de fabrico de cerveja incorpora mais de 80% de matérias-primas de origem portuguesa. Só no ano passado, a indústria comprou 78 mil toneladas de malte produzido em Portugal. Além da cevada e do vidro, por exemplo.

O sector é auto-suficiente e exporta 40% do que produz, cerca de 300 milhões de euros em cerveja. Só que o consumo tem estado a cair não só em Portugal como também na Europa e até mesmo nos Estados Unidos. E se, até há bem pouco tempo, o mercado doméstico representava a maior fatia das vendas, a verdade é que muito em breve mais de metade da produção será para vender no estrangeiro.

Portugal é, nesta matéria, um caso sui generis: vive uma espécie de duopólio, dominado pela Unicer – até há poucos dias liderada pelo actual ministro da Economia, António Pires de Lima – e pela Central de Cervejas – chefiada por Alberto da Ponte, entre 2004 e 2012, e que no final desse ano assumiu a presidência do conselho de administração da televisão estatal, a RTP.

Os dois homens fortes do sector conduziram as empresas taco a taco e até na hora da saída mantiveram semelhanças, deixando o sector privado para integrar o serviço público. Mas hoje como antes, as cervejeiras mantém a estratégia definida até 2014.

INTERNACIONALIZAÇÃO Com a situação do mercado interno, as empresas têm duas alternativas. A primeira passa pelo lançamento de novos produtos no mercado doméstico – há cerca de 20 marcas, mas, entre originais e variações, perde-se-lhes a conta, das tradicionais às sem álcool, passando pelas loiras, pelas pretas ou de frutos. A segunda alternativa é ir buscar lá fora o que não há cá dentro, clientes. Por isso mesmo, a internacionalização é um caminho natural para empresas, quase uma forma de sustentabilidade, na medida em que o mercado interno tem vindo a diminuir desde, praticamente, a década de 1990, uma quebra que se acentuou nos últimos dois anos.

Este ano, e mantendo a quebra dos últimos anos, o consumo fora de casa já caiu 2%, mas a Associação Portuguesa dos Produtores de Cerveja (APCV) ainda acredita que se possa recuperar alguma coisa se, claro, o Verão se mantiver quente.

Mas voltando à internacionalização, é de lembrar que Portugal ocupa o sétimo lugar na classificação europeia enquanto país exportador de cerveja. De acordo com a associação, o saldo da balança comercial (diferença entre importações e exportações) no sector é de 1 para 30, totalizando as exportações um volume de 320 milhões de litros.

Mas esta é uma equação que deverá mudar muito em breve. As duas empresas têm vindo a entrar em novos mercados como forma de minimizar as suas perdas, e parecem estar a fazê-lo com êxito. Angola é o principal importador de cerveja portuguesa e as duas companhias nacionais estão já há vários anos a preparar as suas operações naquele país, com sócios locais (ver peça lateral). Ainda no continente africano, as empresa têm vindo a investir no desenvolvimento de outros mercados, como Moçambique, Guiné Bissau ou Cabo Verde.

Na Europa, além do eixo França/Suíça/Luxemburgo, onde é líder, a Unicer destaca a aposta no norte de Espanha e no Reino Unido. Do outro lado do Atlântico, Brasil e América do Norte, a actividade será também reforçada.

A empresa agora liderada por João Rego Abecassis está também a crescer no continente asiático com a marca Super Bock, nomeadamente na Arábia Saudita onde, em conjunto com parceiros locais, está a iniciar a comercialização na variante sem álcool (0,0%).

A Central de Cervejas vende no estrangeiro cerca de 20% do que produz no mercado nacional. No caso da empresa de Vialonga, o chamado mercado da saudade – Suíça, França, Luxemburgo, Inglaterra e a própria Alemanha -, é um importante destino.

No continente americano, a empresa está a dar os primeiros passos na exportação para os Estados Unidos e Canadá e a iniciar um projecto de internacionalização no Brasil (ver peça lateral).

A cervejeira começou também a exportar alguma coisa para Macau e acredita que este pode ser o início para desbravar o mercado e fortificar relações comerciais, num local que não é fácil do ponto de vista da instalação industrial.

Basicamente, as duas companhias acreditam que não devem desperdiçar nenhuma oportunidade e têm de olhar sobretudo para os países disponíveis e onde se espera que haja crescimento económico nos próximos anos: Angola, Brasil, China, Rússia, África do Sul, Moçambique, são alguns deles. Afinal, a proposta é fazer aquilo a que os portugueses fazem há 500 anos, descobrir novos mercados.

 

Fonte: Jornal i

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