A Reserva Federal norte-americana (Fed) surpreendeu hoje os mercados financeiros e os analistas ao manter o seu programa de estímulos monetários decidindo não proceder nesta reunião ao início do seu abrandamento.
Depois de dia e meio de reunião, o Comité Monetário da Fed decidiu “esperar por mais evidência de que o progresso
Votaram a favor da decisão 9 membros, incluindo o presidente Ben Bernanke e Janet Yellen (tida como forte candidata à sucessão na presidência da Fed a partir de final de janeiro, depois da desistência de Lawrence Summers este fim de semana), com apenas 1 voto contra.
Muitos analistas anteviam que, nesta reunião de setembro, Ben Bernanke e a equipa que lidera no banco central dos EUA, procedesse ao primeiro passo de abrandamento do programa de estímulos. Esse processo de redução do volume de compra de ativos ainda este ano, e depois de paragem total em meados do próximo ano, foi anunciado em maio por Bernanke. Os norte-americanos designaram esse processo como “tapering” da estratégia de “alívio quantitativo” (quantitative easing, na designação em inglês, acrónimo QE) que tem sido seguida como resposta à crise.
Euforia financeira e alívio na América Latina
O efeito da decisão da Fed provocou uma euforia imediata nos mercados financeiros norte-americanos. O índice bolsista Dow Jones subiu quase 1% e a onça de ouro disparou 4% no COMEX e no spot. As yields dos títulos do Tesouro a 10 anos desceram 16 pontos base; tendo aberto em 2,84%, fecharam em 2,69%. A 5 de setembro tinham registado 2,99%.
A reação imediata na América Latina foi de alívio. Em Brasília, o governador do Banco Central, Alexandre Tombini, disse ao Congresso que os mercados financeiros estavam a reagir bem e que as moedas das economias emergentes estavam a reganhar fôlego face ao dólar. No entanto, os latino-americanos têm consciência que se trata de um alívio temporário: “Sem dúvida que a continuação do estímulo [monetário] envia um sinal de tranquilidade aos mercados. No entanto, há que reconhecer que esse estímulo não pode ser permanente, algo que todas as economias emergentes têm de compreender”, afirmou o secretário das Finanças mexicano, Luís Videgaray. Na Ásia, a rupia indiana liderou as subidas entre as divisas, seguida do bath tailandês e do ringgit malaio.
Espera-se que o adiamento da mexida na política de injecção monetária tenha amanhã um efeito positivo nas bolsas e nos mercados financeiros da Europa e da Ásia.
Inflação baixa, Congresso e dívida preocupam Fed
Na conferência de imprensa, realizada na sequência da reunião, o presidente da Fed acentuou três riscos para a prudência: a subida das yields dos títulos do Tesouro de longo prazo (de 1,66% em 2 de maio para um pico de 2,98% em 5 de setembro, um “salto” de mais de 130 pontos base) em virtude do anúncio feito em maio de que a política monetária iria ser reduzida e depois desativada; uma inflação “persistentemente abaixo do objetivo de 2%” que poderá prejudicar a economia; e eventos negativos que possam surgir do Congresso norte-americano, em virtude dos próximos debates orçamentais que podem suspender o financiamento da Administração federal a partir de 1 de outubro e do regresso da questão do aumento do teto da dívida federal (que poderá criar um risco de default temporário).
“A Reserva Federal não pode evitar que aconteçam coisas terríveis à economia na eventualidade de uma suspensão da atividade do governo, ou de um incumprimento na dívida (federal). Cabe ao Congresso e ao Presidente fazerem o seu trabalho e deixarem de depender da Fed para o fazer melhor”, disse Bernanke aos jornalistas sobre o risco político interno no terceiro trimestre do ano.
Decisão adiada para dezembro?
Bernanke não confirmou que esteja de saída da presidência da Fed e adiantou que não haverá conferência de imprensa a seguir à reunião mensal de 29 e 30 de outubro, o que, para muitos analistas, significa que não haverá, também, mexidas nos dois próximos meses. Em novembro não está agendada reunião da Fed. No entanto, Bernanke não descartou a hipótese de, mesmo sem conferência de imprensa agendada (em outubro), poder ser tomada alguma decisão relevante e, depois, ser encontrada uma forma de esclarecer o público.
Pelo que a especulação sobre “reduzir ou não reduzir” vai continuar, ainda que, para vários analistas, a decisão esteja a ser adiada para dezembro, quando o comité reunir a 17 e 18.
O departamento de investigação do Citi, no seu “US Macro Flash”, admite que não é de descartar que os debates se prolonguem adentro do próximo ano.
Até lá resta saber, também, se o presidente Obama comunicará a sua decisão de escolha do novo presidente da Fed que entra em funções a 1 de fevereiro de 2014.
Fonte: Expresso