Ninguém pensa, quando imprime um documento, o caminho que essa simples folha de papel percorreu até chegar às suas mãos. Ou quando vai a um restaurante japonês como aqueles pauzinhos de tão complexa utilização são produzidos. Tudo começa na floresta, nas árvores, um sector em que somos poderosos e podemos chegar muito mais longe se houver uma adequada política pública e privada para o sector.
O tema vai estar em destaque no terceiro congresso organizado pela Associação para a Competitividade da Indústria da Fileira Florestal, onde marcam presença, além da ministra do Ambiente, Assunção Cristas, João Ferreira do Amaral, enquanto presidente da associação, e Daniel Bessa, como representante da Cotec, e que decorre hoje em Lisboa.
O quadro que vai ser apresentado deixa muito a desejar. O número de empresas do sector florestal (silvicultura e indústria florestal) representava, em 2011, 2,4% do total de empresas nacionais. O peso do sector no emprego, com um total de 65 939 trabalhadores, representava 2,4% do total de pessoas empregadas em Portugal nesse ano.
No conjunto, a indústria florestal tinha nesse mesmo ano um peso de 81% no número total de empresas do sector e de 91,9% no total de trabalhadores. O número médio de pessoas por empresa nesta parte da fileira (10,9 pessoas/empresa) era 13,4% superior à média do sector, que em 2011 era de 9,6 pessoas/empresa. A indústria florestal tinha igualmente um peso significativo no conjunto da indústria transformadora, representando 16,1% do total de empresas e 10,2% do total do emprego.
A silvicultura, cuja actividade é de- senvolvida através de empresas de menor dimensão (média de 4,1 pessoas/empresa, o que representa 42,6% da média do sector), tinha um peso relativo importante no conjunto do sector da agricultura, produção animal, caça e silvicultura, com 10,8% do total de empresas e 10,1% do emprego. Segundo os dados disponibilizados pelos ministérios da Economia e do Emprego (MEE) para os anos de 2002, 2006 e 2011, o número total de empresas no sector passou de 10 114 para 6841, o que representou uma redução de 32% no conjunto deste tecido empresarial.
Essa redução foi bastante superior à queda relativa das empresas a nível nacional, o que conduziu a uma perda de importância desta actividade ao longo do período: o sector florestal representava, em 2002, 3,5% do total de empresas nacionais contra os actuais 2,4%. Esta redução ocorreu devido à queda do número de empresas na indústria florestal, tendo a silvicultura, em contrapartida, registado um acréscimo do número de empresas: a silvicultura só representava 10,7% do total do sector em 2002, mas em 2011 já representava 19%.
MENOS POSTOS DE TRABALHO A evolução do número total de pessoas que trabalhavam no sector florestal mostra que houve uma redução entre 2002 e 2011 de 31 250 pessoas, o que representou uma quebra de 32,15% relativamente ao emprego desta actividade relativamente a 2002. Esta quebra ficou sobretudo a dever-se à perda de emprego na indústria florestal, compensada muito ligeiramente pelo crescimento do emprego na silvicultura (em 2011 havia mais 671 pessoas ao serviço que em 2002).
O estudo desenvolvido pelo consórcio CONSULAI, Instituto Superior de Agronomia (ISA) e Universidade Católica Portuguesa – Centro Regional do Porto, que será hoje apresentado, mostra ainda que do total de pessoas ao serviço de empresas da silvicultura, mais de 88% têm como habilitações literárias o ensino básico ou inferior e apenas 4,6% têm formação superior. Em simultâneo, o universo empresarial ligado a esta actividade caracteriza-se por microempresas (mais de 90% das empresas com CAE de silvicultura têm menos de 10 trabalhadores), com uma média de 4,1 pessoas por empresa, bastante aquém das 9,6 de média do sector florestal e das 9,7 de média para o conjunto das empresas nacionais.
I&D na fileira florestal é ínfimo e suportado pelas empresas
Incêndios continuam a ser a maior praga enfrentada pelo sector
Oinvestimento em I&D das empresas do do sector florestal a nível nacional está relativamente estabilizado. O investimento desde 2007 não foi alterado significativamente, embora esteja muito acima dos valores de 2005. As despesas do sector têm oscilado no período considerado, tendo atingindo um pico em 2011 de 28 mil euros. O financiamento deste investimento é maioritariamente proveniente de fundos próprios das empresas (95%) e marginalmente apoiado por fundos do Estado ou do estrangeiro. Mesmo assim, o peso dos apoios públicos em I&D cresceu entre 2008 e 2010, mas voltou a decrescer em 2011 para níveis de 2008. O financiamento de outras empresas é praticamente marginal e tem-se vindo a reduzir substancialmente ao longo dos anos em análise feita pela Católica e pelo Instituto Superior de Agronomia.
Outro dos grandes problemas com que o sector se defronta são os incêndios. A evolução da área ardida para os anos de 2001-2012 para as três principais espécies produzidas em Portugal permite conclui que o pinheiro bravo foi o mais afectado, com 271 194 hectares (41%) de área ardida, seguida pelo eucalipto. com uma área ardida de 224 571 de hectares (34%), e pelo sobreiro com 65 648 hectares consumidos pelo fogo.
Os anos de 2003 e 2005 foram particularmente severos para estas espécies. No caso do eucalipto, só nestes dois anos, arderam cerca de 64% da área total de todo o período considerado. No caso do sobreiro, estes dois anos foram responsáveis por 66% de área total ardida, sendo que a área ardida do sobreiro em 2003 correspondeu a 64% da área total ardida.
A área ardida do pinheiro bravo nos anos 2003 e 2005 correspondeu a 62% do total do período entre 2001 e 2012. Já a área média anual de povoamento de eucalipto afectada por incêndios florestais foi de 2,1%, enquanto, considerando como atípicos os anos de 2003 e 2005, este valor baixou para 1%. Quanto aos povoamentos de pinheiro bravo e sobreiro, verifica-se que a área média anual de replantação afectada por incêndios foi de 2,2% e 1,3% respectivamente. O sobreiro viu a área média de povoamentos afectada anualmente ser compensada em 0,6%, embora, retirando os valores de 2003 e 2005, esse valor baixe para 0,3%.
Fonte: Jornal i