A França já perdeu a batalha da língua no novo mundo da informação, está a perder influência na cultura europeia e mundial e está igualmente em queda livre em matéria económica. Mas mesmo assim tenta usar o proteccionismo para salvar o que pode no mundo sem barreiras da comunicação global. Como fez sexta-feira, quando insistiu na exclusão da cultura do acordo de comércio livre com os EUA numa reunião a 27 para preparar o início das negociações com Washington. José Manuel Durão Barroso atacou forte e feio a posição francesa ao considerar “reaccionária” a exigência de excluir o sector audiovisual e cultural. A resposta de Paris não se fez esperar: “É espantoso e intolerável. Nada autoriza um presidente cooptado pelos seus amigos de direita no poder na Europa a dar lições à França. Nada autoriza o senhor Barroso a julgar uma decisão unânime do Conselho”, diz Jean-Christophe Cambadélis, responsável no PS francês pelas questões europeias e internacionais.
Na entrevista ontem publicada no “International Herald Tribune”, o presidente da Comissão Europeia afirmou que “alguns dizem que são de esquerda, mas na verdade são culturalmente extremamente reaccionários”, disse.
As críticas de Durão Barroso surgem depois das longas negociações realizadas na sexta-feira entre os 27 ministros do Comércio da União Europeia para acordar os termos do mandato para negociar o acordo UE-EUA, que será o maior acordo de comércio livre do mundo e que pode valer 0,5% do PIB europeu. Ao fim de 13 horas de negociações, França manteve a insistência na chamada “excepção cultural”, que prevê a protecção do sector cultural e a exclusão “clara e explícita” do audiovisual, exigência que acabou por ser aceite com a condição de a Comissão Europeia poder voltar à questão se for necessário.
500 MIL MILHÕES
Sem nomear a França, Durão Barroso afirmou que aqueles que receiam uma invasão cultural norte-americana da Europa têm “uma agenda anti-cultural” e “não compreendem os benefícios que a globalização traz também do ponto de vista cultural”. França saudou o resultado das negociações de sexta-feira, mas o comissário europeu do Comércio, Karel de Gucht, afirmou que vai “ouvir o que os amigos norte-americanos têm a dizer” e depois, se for necessário, “pedir mandatos adicionais”. Vários responsáveis europeus têm-se oposto à exigência francesa alegando que ela vai dar vantagem aos Estados Unidos em negociações previsivelmente muito difíceis. Os EUA têm recusado excluir qualquer sector das negociações. A concretizar-se, o acordo de comércio livre entre a Europa e os Estados Unidos será o maior do género no mundo. Em 2012, o comércio bilateral entre os dois blocos foi de cerca de 500 mil milhões de euros, os serviços de 280 mil milhões e os investimentos de vários milhões de milhões de euros.
fonte: Jornal i