Dois dias depois da ministra das Finanças ter anunciado que quer fazer um debate sobre a dívida no parlamento, Passos Coelho admitiu ontem, embora cautelosamente, que o governo pode seguir o exemplo da Irlanda e renegociar algumas das condições da parte do empréstimo ao FMI. O i sabe que o governo está a trabalhar neste cenário, embora a proposta não esteja ainda fechada.
Para já, o governo português apoiará a “decisão racional” da Irlanda, segundo disse o primeiro-ministro, ontem, na Grécia. “Claro que este é um bom princípio também para nós. Não temos a mesma diferença entre os [juros pagos nos] mercados financeiros e as condições acordadas com o FMI, essa divergência não é tão grande como no caso da Irlanda. Mas espero que, nos próximos meses, Portugal possa ter melhores perspectivas nas maturidades a dez anos”.
Passos Coelho foi cauteloso e disse que nada estava ainda decidido. Mas o governo quer mesmo seguir o exemplo da Irlanda. Dublin prepara-se para pagar antecipadamente a maioria do empréstimo que recebeu do Fundo Monetário Internacional para poder poupar uns 375 milhões em juros por ano. Neste momento, a Irlanda paga um juro de 5% ao FMI, enquanto consegue financiar-se nos mercados internacionais a juros na ordem de 2%. O governo irlandês acredita que os outros governos da União Europeia autorizarão o pagamento antecipado pela Irlanda do empréstimo pedido ao FMI.
No caso de Portugal a estratégia deverá passar por baixar os juros da dívida, mas também por alongar os prazos de reembolso do empréstimo, alisando os picos de amortização, disse ao i Filipe Garcia, da consultora financeira IMF. As duas condições podem ser conseguidas no actual momento favorável dos mercados que permite substituir o Fundo por credores privados com vantagem para Portugal. O FMI cobra-nos uma taxa de 3,4% – enquanto os empréstimos da União Europeia custam ente 2,1% e 2,9% – que deve ficar acima da taxa média implícita que o país terá de pagar este ano a título de juros.
Mas ao contrário da Irlanda, Portugal dificilmente terá condições para amortizar antecipadamente a totalidade do empréstimo do FMI. Em causa estão mais de 24 mil milhões de euros.
Filipe Garcia admite como mais provável uma “amortização parcial”, que poderia incidir sobre os primeiros reembolsos ao FMI. Em 2015 e 2016, Portugal terá de devolver cerca de três mil milhões de euros. Se este empréstimo for substituído por financiamento em mercado a dois anos, com as taxas de juro do momento, na casa de 0,6%, então a poupança nos juros seria relevante em termos relativos. Neste exemplo poderia superar os 150 milhões e euros.
Outra alternativa seria optar por aliviar os anos de maior esforço financeiro, que no caso do empréstimo do FMI, são entre 2018 e 2020. Neste período Portugal tem de amortizar quatro mil milhões de euros por ano que poderá diluir no tempo, caso substitua o crédito do fundo por empréstimos em mercado com um prazo mais longo.
Em qualquer dos cenários, será mais fácil o FMI aceitar o reembolso antecipado do que um investidor privado que para a mesma operação exigiria receber um prémio. Ainda assim, a pretensão nacional depende da vontade política do fundo…e dos parceiros europeus. Para já, não tem havido qualquer oposição à pretensão da Irlanda.
COM A IRLANDA E A GRÉCIA
Não atingimos o paraíso (…) sabemos que temos um longo caminho pela frente, mas agora podemos percorrê-lo pelos nossos próprios pés, decidindo nós mesmo o que é melhor, e isso faz toda a diferença, como podem imaginar”, disse ontem o primeiro-ministro, em Atenas, onde se deslocou a convite de Antonis Samaras – as relações entre os dois países não sofreram com o mantra governamental destes três anos “nós não somos a Grécia”. E não deixou de ser uma coincidência que tenha sido na Grécia que Passos Coelho mais uma vez admitiu vir a seguir a Irlanda.
Na conferência de imprensa com vários elogios de parte a parte, segundo relata a Lusa, Passos Coelho fez questão de deixar “uma palavra de solidariedade” ao povo grego, pois sabe, “também por experiência própria”, os grandes custos sociais que as reformas acarretam. A Grécia, que tinha “um ponto de partida muito difícil”, já fez muito e tem agora “uma base forte para um futuro sustentável”.
Fonte: Jornal i