A economia portuguesa vai beneficiar nos próximos anos com a aposta nos portos e na ferrovia. Esta é a visão estratégica do Governo até 2020: mais comboios para levar mais mercadorias para Espanha e a Europa , assim como para os portos, de onde seguem depois para o resto do mundo.
O Executivo de Pedro Passos Coelho colocou a si próprio uma fasquia elevada: são quase 6100 milhões de euros em 59 infraestruturas. Os valores superaram as recomendações do grupo de trabalho, que tinha proposto 30 projetos por 5000 milhões de euros.
“O investimento de cerca de 6000 milhões de euros está dividido por 59 projetos. Não são 6000 milhões de euros por um aeroporto, uma ponte e um comboio”, disse ontem o ministro da Economia, António Pires de Lima, durante a apresentação das infraestruturas. O investimento vai ser direcionado para o sector ferroviário (44%), com 2,6 mil milhões; sector marítimo-portuário (25%), 1500 milhões; sector rodoviário (15%), 900 milhões; transportes públicos de passageiros (12%), 720 milhões; sector aeroportuário (4%), 240 milhões de euros.
O secretário de Estado das Infraestruturas, Transportes e Telecomunicações, Sérgio Monteiro, sublinhou que foi dada prioridade à ferrovia por ser “importante do ponto de vista estratégico, ambiental e de sustentabilidade do País”.
A maioria dos investimentos vão ser financiados por fundos comunitários, 2,8 mil milhões (47% do total). Segue-se o financiamento privado, 1,8 mil milhões (31%) e os fundos públicos com 1,3 mil milhões (22%).
“É um plano que acreditamos ser ambicioso, mas 6067 milhões de euros por oito anos em 59 projetos mostra também critério e prudência”, afirmou Pires de Lima.
O Governo anunciou também que vai avançar – a partir de abril – com a fusão das empresas gestoras das redes rodoviária e ferroviária nacionais: a Estradas de Portugal e a Refer. “A interglobalidade tem que ser um princípio também vertido na organização das entidades que dependem do Estado”, disse Sérgio Monteiro. O sector privado deve envolver-se no financiamento dos projetos, disse o secretário de Estado, que sublinhou que, sem investimento privado, muitos projetos não vão sair do papel. “Alguns projetos ou têm interesse por parte dos privados ou não avançam”, alertou Sérgio Monteiro, dando o exemplo da autoestrada entre Coimbra e Viseu. “Vamos ser muito exigentes nos cadernos de encargos que aprovaremos. Não aceitaremos que a matriz de risco fique desequilibrada em prejuízo da entidade público”, afirmou.
O documento com as infraestruturas vai ser hoje enviado para Bruxelas para ser apreciado pela Comissão Europeia. Na próxima semana, vai ser divulgado publicamente, dando a conhecer os 59 projetos em detalhe, o que não aconteceu ontem, apesar de Sérgio Monteiro admitir que a “esmagadora maioria” das 30 infraestruturas contidas no relatório do grupo de trabalho obtiveram a luz verde do Governo.
O PS já veio ontem a público criticar o plano do Governo. “Não era de esperar que um governo que não tem uma ideia estratégica para o país a tivesse para as infraestruturas”, disse o dirigente socialista Eurico Brilhante Dias, que acusou o executivo de estar a “consumir dinheiro de forma impreparada”.
Os sectores estratégicos
Área ferroviária terá o maior investimento
A ferrovia vai receber a maior parte do investimento em infraestruturas, 44% do total. Vão ser 2,6 mil milhões de euros aplicados no escoamento de bens produzidos em Portugal para outros países, fomentando as exportações. Entre os projetos deste sector inclui-se o corredor ferroviário que vai ligar os portos de Lisboa, Setúbal e Sines a Madrid e ao resto da Europa. Mais a norte, o Governo pretende consolidar o corredor entre Porto, Aveiro e Vilar Formoso, que vai fazer a ligação a Salamanca, em Espanha, e à rede internacional. Mais a sul, vai ser desenvolvida a linha do Algarve e construída uma ligação direta ao Aeroporto de Faro. Também está prevista a consolidação da linha entre Lisboa e Porto, até Vigo.
Portos de norte a sul do País vão ser modernizados
Os portos também são uma peça essencial no tabuleiro das infraestruturas. São 1,5 mil milhões de euros para modernizar Sines, Leixões, Aveiro e Lisboa, tanto no movimento de mercadorias como de passageiros (cruzeiros). A obra mais emblemática será o novo terminal de contentores de Lisboa, cujo valor estava estimado em 600 milhões de euros pelo grupo de trabalho. A capital também vai receber o novo terminal de passageiros de cruzeiros. Leixões vai ser alvo de três intervenções ou conclusões: novo terminal de contentores e outro de cruzeiros e a plataforma logística. Para Sines, deverá avançar a expansão do terminal de contentores XXI, para aumentar a capacidade do maior porto português.
Pequenos troços de estrada são privilegiados
As estradas não vão ser prioritárias para os próximos anos em Portugal. As rodovias poderão receber 900 milhões de euros até 2022, uma parcela de 15% do investimento total. Aqui, incluem-se o fecho da malha rodoviária constituída pelo Túnel do Marão e o eixo do IP3 entre Coimbra e Viseu e o do IP5 entre Vilar Formoso e a fronteira. Bruxelas já alertou que não pretende investir mais dinheiro em estradas em Portugal, mas o Governo considera que este investimento é essencial porque privilegia os projetos last mile, inferiores a 10 quilómetros, que vão servir para ligar zonas industriais ou com empresas à rede rodoviária já existente, sempre com o objetivo de fomentar a circulação de mercadorias.
Transportes públicos e aeroportos beneficiados
Os aeroportos portugueses vão receber 240 milhões (4% do investimento total) para se modernizar. Uma das obras que poderão avançar é o novo terminal de cargas do Aeroporto de Lisboa, para permitir a movimentação de mais mercadorias. O Governo também quer privilegiar o transporte público de passageiros. Para isso, estão destinados 720 milhões de euros (12% do total). Em Lisboa, António Costa defende que a Carris e o Metro devem ficar sob a alçada da autarquia, mas o Governo pondera concessionar a empresas a operadores privados. “É muito prematuro estar a falar de matérias que estão em discussão” disse Sérgio Monteiro.
Fonte: Dinheiro Vivo