Páginas inteiras de publicidade em jornais de referência de todo o mundo são veículos para “apelar ao coração”.
“Maria Elena Corral, 77, trabalhou 40 anos como secretária e investiu em dívida argentina, num acto patriótico. Maria continua à espera que o seu governo tome a atitude certa, entendendo-se com os investidores”. Esta é uma das frases de um dos anúncios de página inteira que os chamados ‘fundos-abutres’ publicaram no Financial Times recentemente e que faz parte de uma guerra mediática entre o governo argentino e os investidores que não aceitaram a reestruturação da dívida proposta pela Argentina, exigindo, assim o pagamento na totalidade.
Buenos Aires tem vindo a responder na mesma moeda: “Eles [investidores-abutres] investiram em títulos de dívida a preços abscenamente baixos com o único propósito de intentar acções judiciais contra a Argentina e ter um enorme lucro com isso”, lê-se em um dos mais polémicos anúncios de página inteira que o governo de Cristina Kirchner publicou no Britain’s Times, Financial Times, El Pais e, ainda, no alemão Allgemeine Zeitung.
Desde o início do Verão que esta guerra mediática invade os jornais de referência de todo o mundo, com acusações de parte a parte e uma campanha de lobby, pensada para apelar aos corações, mentes e votos de todos os que possam influenciar, de alguma forma, o desfecho da disputa entre o governo argentino e um poderoso grupo de fundos de investimento, liderado por Paul Singer.
Há mais de uma década que estes fundos – a que a Argentina chama de ‘abutres’ – estão em conflito com o governo argentino, desde que o país entrou em incumprimento (‘default’), em 2001. Mas, o que despoletou agora este confronto de milhões de dólares gastos em publicidade foi uma decisão do Supremo Tribunal norte-americano a favor do pagamento integral da dívida aos investidores que não aceitaram o acordo de reestruturação da dívida proposto pela governo argentino, na sequência do ‘default’ de 2001, para que seja desbloqueado o pagamento a todos os outros credores.
Esses fundos de investimento, a maioria norte-americanos, representam apenas 7% dos investidores em dívida da Argentina. Mas já levou a milhões de dólares gastos – estima-se que mais de um milhão de cada um dos lados – em páginas de publicidade no New York Times, no Wall Street Journal, Financial Times e Washington Post, só nos últimos dois meses.
A pergunta que se coloca agora é: até que ponto esta guerra mediática entre Buenos Aires e Washington pode, de facto, influenciar uma solução?
Fonte: Económico