Sacyr quer mais 1200 milhões, mas proposta baixa do grupo vencedor levantou enorme suspeitas em 2010.

O ano começou com uma enorme bronca. No Panamá, em Espanha e também com ondas de choque no porto de Sines. As obras de ampliação do Canal do Panamá, que deveriam ficar prontas em meados de 2015, podem ser suspensas ainda este mês. O consórcio liderado pelo grupo espanhol Sacyr anunciou ter enviado uma carta às autoridades do Panamá com a ameaça de parar os trabalhos se num prazo de 21 dias não forem satisfeitas as suas condições. O Grupo Unidos pelo Canal, nome do consórcio, refere que não pode continuar uma obra que apresenta já 1200 milhões de euros de sobrecustos, o que equivale a 50% do valor total da obra. O consórcio culpa a administração panamiana de lhe ter fornecido informação deficiente e outros imprevistos, muito embora na altura da adjudicação os concorrentes terem acusado o consórcio de ter feito uma proposta temerariamente baixa.

WIKILEAKS AO BARULHO Com efeito, os telegramas da embaixada dos EUA no Panamá, obtidos pelo Wikileaks e analisados e publicados pelo diário “El País” em 2010, mostravam que a empresa americana Bechtel, que perdeu o concurso, considerava a proposta da Sacyr, no valor de 2300 milhões de euros, manifestamente impossível de se concretizar face ao volume da obra. A empresa americana fez uma proposta de 4200 milhões e suspeitou na altura que a Sacyr iria a meio da obra tentar renegociar o contrato, o que está agora a acontecer, quatro anos depois da adjudicação.

Seja como for, na carta enviada à Autoridade do Canal do Panamá, o consórcio quer “discutir de uma maneira justa e apropriada uma solução para os grandes problemas financeiros que estão a afectar o projecto, que está executado em 65%”. O consórcio liderado pela Sacyr, e que integra igualmente a italiana Impregilo, a belga Jan De Nul e a panamiana CUSA, assinala que apesar de haver um acordo entre as partes, o administrador do canal não honrou os compromissos assumidos. Por tudo isso, escreve o consórcio, a obra não pode continuar se não forem pagos os 1200 milhões da reclamados.

SACYR OCULTOU PROBLEMAS Ainda segundo o “El País”, os problemas na maior obra de uma empresa espanhola no estrangeiro foram ocultados ao mercado pela Sacyr. Há menos de um mês, a empresa espanhola assegurou à CNVM que o Canal do Panamá ia aceitar as suas reclamações para compensar os trabalhos a mais e os sobrecustos da obra numa altura em que as autoridades panamianas já tinham recusado o pagamento das verbas exigidas e remetido a resolução do problema para um tribunal arbitral. Agora, o consórcio liderado pela Sacyr refere na carta enviada ao mercado que não pode esperar pela decisão da arbitragem e suportar os custos elevados do processo.

PANAMÁ RECUSA ULTIMATO Acontece que a Autoridade do Canal do Panamá já respondeu ao consórcio espanhol, acusando-o de ter escrito a carta com o único propósito de a forçar a negociar fora dos termos estabelecidos no contrato. E o presidente panamiano, Ricardo Martinelli, avisou ontem que vai a Espanha e Itália exigir que as empresas do consórcio cumpram os contratos.

Mas obras já estão atrasadas mesmo sem o ultimato espanhol. A Autoridade do Canal do Panamá queria que o terceiro jogo de eclusas estivesse terminado no final de 2014, mas as previsões mais recentes apontam para meados de 2015. A pretensão do Panamá tem a ver com o centenário do canal, que se comemora este ano. Agora, está tudo ameaçado. O prazo de 21 dias está a correr com duas partes separadas por 1200 milhões de euros.

 

Fonte: Jornal i

Comentários

comentários