Dublin apoiará Lisboa, mas terá de ser o Governo português a avaliar as condições para sair do programa de assistência financeira sem plano cautelar, afirmou o secretário de Estado para a Reforma do Serviço Público irlandês.

“Não cabe ao Governo irlandês aconselhar os outros países e ter a arrogância de sugerir que devem seguir o nosso exemplo. Cabe a cada país decidir de acordo com as suas próprias condições se precisam ou não de uma linha de crédito cautelar”, afirmou Brian Hayes, número dois no Ministério das Finanças.

Em entrevista à agência Lusa poucos dias antes de terminar o programa de assistência financeira da troika formada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Central Europeu (BCE) e União Europeia (UE), a 15 de Dezembro, o governante confirmou que os países têm colaborado ao longo deste tempo.

“O Governo irlandês tem trabalho de forma muito próxima com os nossos colegas em Portugal, sobretudo na questão da componente europeia da dívida à troika. E continuamos a trabalhar com Portugal nestes assuntos. Mas caberá ao Governo português decidir a sua estratégia e nós daremos o apoio no mesmo espírito de solidariedade com que ajudaríamos qualquer outro país membro da UE”, vincou.

A decisão de recusar um programa cautelar, reiterou Hayes, resume-se ao facto de o país estar financiado por mais de um ano, até ao início de 2015, graças à reserva superior a 20 mil milhões de euros reunida pela National Treasury Management Agency (NTMA), que gere a dívida pública.

“Só este ano conseguimos sete ou oito mil milhões e o objectivo da agência é angariar o mesmo montante no próximo ano com maturidades a longo prazo. Em segundo lugar, um novo começo é um sinal mais forte para os mercados do que ter uma linha de crédito cautelar”, justificou.

Há quem chame ao dia 15 de Dezembro, que marca o último dia do programa, “D Day” ou “Deliverance Day”, que se pode traduzir por Dia da Libertação, admitiu, mas o secretário de Estado não espera celebrações nas ruas.

“As pessoas têm razão em estar cautelosas porque só notarão melhorias quando as sentirem nos bolsos. A política macroeconómica está a ir na direcção que queremos, mas as pessoas ainda não a estão a sentir. A tarefa que enfrentamos é provar que estes ajustamentos podem conduzir a níveis sustentáveis de crescimento para que as pessoas possam voltar a ter emprego”, declarou Brian Hayes à Lusa.

As perspectivas positivas do Governo para o futuro foram delineadas no orçamento para 2014, no qual se estima um crescimento económico de 2%, uma redução do défice para 4,8% e até um pequeno excedente primário.

Mas Brian Hayes referiu existir ainda um assunto pendente, o da renegociação da dívida de 64 mil milhões de euros dos bancos irlandeses, que foi assumida pelo Estado como parte do plano de resgate de 85 mil milhões de euros.

“O país teve de sofrer ao aceitar dívida dos bancos que foi carregada nos ombros dos irlandeses. É um assunto herdado em que a Irlanda está determinada em conseguir o apoio dos colegas da UE porque, desde o caso da Irlanda vimos os casos do Chipre e da Espanha, em que o envolvimento do sector privado foi fundamental na sua restruturação”, enfatizou.

O ministro das Finanças irlandês, Michael Noonan, tem insistido na hipótese de parte de esta dívida ser assumida retrospectivamente pelo Mecanismo de Estabilidade Financeira, mas sem sucesso, sobretudo devido à oposição da Alemanha.

O fim do programa de assistência e o controlo da dívida soberana, disse Hayes, mostra que “metade do trabalho está feito”, acrescentando: “mas estamos absolutamente convencidos da necessidade de obter um acordo para a outra parte da dívida”.

 

Fonte: Negócios

Comentários

comentários