A exposição das seguradoras aos sete maiores grupos financeiros nacionais é de 10,8 mil milhões de euros.
As estreitas relações existentes entre bancos e seguradoras em Portugal, e a consequente exposição das carteiras de investimento aos próprios grupos são um dos actuais riscos do sector segurador. No relatório sobre os riscos do sector segurador e fundos de pensões de 2014, ontem publicado, o Instituto de Seguros de Portugal (ISP) identifica “as fortes relações intragrupo que se verificam entre alguns dos principais operadores do mercado segurador e os maiores bancos nacionais” como um dos riscos actuais que o sector enfrenta.
O supervisor recorda que tal resulta “da forma como o sistema financeiro português se encontra estruturado”, com vários bancos nacionais a deterem seguradoras, mas sublinha o facto de “estas exposições poderem funcionar como canais de contágio, potenciando a propagação dos riscos entre sectores”.
No final do ano passado, informa o ISP, a exposição directa, em termos contabilísticos, das seguradoras aos sete maiores grupos financeiros nacionais – BCP, CGD, BES, BPI, Montepio Geral, Banif e Crédito Agrícola – atingiu os 10,8 mil milhões de euros, valor que representa 22,2% do total de activos afectos. Por exposição directa entenda-se acções, depósitos, dívida privada e derivados. É nos depósitos das instituições de crédito que esta concentração das carteiras de investimento das seguradoras em activos do seu próprio grupo se faz sobretudo sentir, acrescenta o relatório, seguida da dívida privada (obrigações). A entidade liderada por José Almaça destaca o caso do grupo MillenniumBCP – Ageas, exposto ao grupo BCP. Segue-se as companhias pertencentes ao grupo Espírito Santo ao próprio BES.
No relatório, o ISP admite que muitas vezes “as elevadas exposições intragrupo” resultam “pelo menos em parte” do papel que o sector segurador possui como “fonte de liquidez e de financiamento” do sector bancário, mas a verdade é que “é crucial manter um grau adequado de diversificação da carteira de investimentos quer ao nível de emitentes, quer do sector de actividade”.
Mais ainda, diz o relatório que há que “evitar estratégias baseadas no aproveitamento de arbitragens regulamentares que prejudiquem a transparência e a condução da supervisão”.
À exposição das carteiras de investimento no sector bancário nacional, o ISP junta a concentração de seguradoras e fundos de pensões em dívida pública nacional. “As empresas de seguros apresentam uma exposição directa a obrigações do tesouro e a activos dos sete maiores grupos financeiros nacionais em valor acumulado de quase 42% do total de activos representativos”, sublinha. Significa isto que o peso da dívida portuguesa é semelhante ao dos bancos nas carteiras de investimento, sendo em termos relativos bastante mais relevante na carteira das seguradoras do que nos fundos de pensões. “Desde o eclodir da crise financeira tem-se vindo a assistir a um reforço do investimento em dívida soberana nacional”, lembra o documento.
Quanto aos restantes riscos enumerados, o contexto macroeconómico continua a ser um dos pontos identificados pelo ISP, que constitui também a principal preocupação das companhias de seguros e sociedades gestoras de fundos de pensões inquiridas pelo ISP. Aliás, do primeiro para o segundo semestre a “envolvente macroeconómica” ganhou ainda mais importância. O ISP considera que este continua a ser, juntamente com os riscos de mercado, um dos mais importantes desafios do sector, ainda que reconheça que existem “sinais positivos, embora ténues, de recuperação” nas economias da zona euro, incluindo Portugal.
Fonte: Económico