Juros da dívida teimam em subir

No mercado secundário, os juros das obrigações do Tesouro a cinco anos fecharam acima de 5% e a dez anos em 6,13%. São mais elevados do que há uma semana. Fitch fala de “linha preventiva de crédito” após conclusão do plano de resgate português. Irlanda já admitiu interesse nessa solução.

Os efeitos positivos da emissão sindicada de dívida a cinco anos realizada, esta semana (23 de janeiro), pelo IGCP (Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública) continuam sem surgir no mercado secundário, onde as yields das obrigações do Tesouro (OT) ainda não baixaram.

Recorde-se que esta emissão sindicada consistiu numa reabertura da linha de obrigações do Tesouro que vence em outubro de 2017. O IGCP colocou 2,5 mil milhões de euros com uma yield de 4,891%.

As yields das obrigações do Tesouro (OT) fecharam hoje, de novo, em alta. Particular atenção tem sido dada às OT com maturidades a cinco e a dez anos. As yields das OT a 10 anos fecharam em 6,130%, de pois de terem aberto em 5,982% e de terem fechado ontem em 6%. Há uma semana tinham fechado em 6,12%, segundo dados da Bloomberg. No caso das yields das OT a cinco anos fecharam hoje em 5,087%, depois de terem aberto em 4,931% e de ontem terem fechado em 4,982%. Há uma semana tinham fechado em 5,03%.

Na maturidade a sete anos, que se aproxima do prazo médio residual da dívida portuguesa (que está em 6,9 anos), as yields fecharam hoje em 5,838%, ligeiramente abaixo do fecho há uma semana atrás (5,849%). Uma ligeira melhoria, neste caso.

O prémio de risco – que mede o diferencial entre as yields das OT e dos Bunds (títulos alemães) a dez anos – subiu hoje para 4,49 pontos percentuais, mas, mesmo assim, abaixo do valor de há uma semana atrás, quando fechou em 4,57. Em termos comparativos, o prémio de risco da dívida espanhola fechou em 3,54 pontos percentuais e para a dívida italiana em 2,49.

Hoje, a probabilidade de incumprimento da dívida soberana num horizonte de cinco anos diminui em relação ao fecho nos dois dias anteriores e se comparada com uma semana atrás. O risco fechou em 28,49%, quando há uma semana havia fechado em 28,73%, segundo dados da CMA DataVision. Apesar da ligeira melhoria ao longo da semana, a posição portuguesa continua a mesma no grupo dos 10 países com maior risco de incumprimento – permanece no 8º lugar.

Ambiente de “contágio positivo” permanece

A “International Financing Review” referiu ontem que as diferenças de interesse dos hedge funds (fundos de alto risco) nas operações sindicadas de dívida de Portugal (a cinco anos) e de Espanha (a dez anos) desta semana podem refletir-se na evolução da performance no mercado secundário. No caso português, os hedge funds desempenharam um papel significativo, com 24% da distribuição das obrigações, enquanto em Espanha a sua participação foi apenas de 4% na operação sindicada desta semana.

Os analistas internacionais são unânimes em que Portugal, Irlanda, Espanha e Itália têm beneficiado do ambiente de “contágio positivo” de que falou o presidente do Banco Central Europeu, Mário Draghi, na primeira reunião do ano do seu conselho diretor, uma ideia que o italiano repetiu hoje no World Economic Forum em Davos. Os quatro países “periféricos” têm aproveitado as “janelas de mercado” no mercado primário para operações de troca ou emissões sindicadas em obrigações, ou mesmo leilões de dívida de médio e longo prazo (no caso de Espanha e Itália).

Os fatores de incerteza mais imediatos na zona euro têm sido sublinhados: previsão de recessão em 2013 da zona euro com uma conjugação de programas de austeridade em diversos países membros; eleições com desfecho incerto neste primeiro trimestre em membros da zona euro (presidenciais no Chipre a 17 de fevereiro e legislativas antecipadas em Itália em 24 de fevereiro) e situação muito frágil em Espanha (crise entre Madrid e Barcelona que aprovou uma Declaração Soberanista sobre a Catalunha, o desenvolvimento do escândalo Bárcenas afetando o PP, e a situação de desemprego juvenil), bem como o “risco político” em Portugal, no dizer da Fitch.

Fitch e Irlanda falam de “linha preventiva de crédito”

A agência de notação Fitch decidiu manter o rating de dívida especulativa (BB+) à dívida da República Portuguesa, apesar da operação sindicada de dívida desta semana, tal como já o havia feito em outubro do ano passado aquando da operação parcial de troca de OT que vencem em setembro deste ano para OT a vencer em outubro de 2015.

A Fitch referiu como desafios as enormes necessidades de financiamento da dívida de médio e longo prazo (com picos em 2014 e 2016, como já foi referido pelo ministro Vitor Gaspar), o custo ainda elevado de financiamento que considera “insustentável”, o risco político que “permanece significativo” e o comportamento global da economia portuguesa (previsão de dois anos consecutivos de recessão em 2012 e 2013 e dúvidas sobre 2014).

O que leva a agência de notação a falar da necessidade de um novo programa após a conclusão do atual plano de resgate. Provavelmente em novos moldes, adiantando o modelo de uma eventual linha preventiva de crédito (com mais “condicionalidades” anexas) prevista no âmbito de atuação do Mecanismo Europeu de Estabilidade complementada pela concretização do programa OMT (compra ilimitada de dívida obrigacionista no mercado secundário com inclinação para os prazos mais curtos) do Banco Central Europeu (BCE), que, até à data, tem sido apenas comunicação verbal.

John Corrigan, responsável pela National Treasury Management Agency (NTMA), a agência irlandesa equivalente ao IGCP português, admitiu ontem uma abordagem similar, após a conclusão do programa da troika. Até lá, a agência irlandesa já referiu que avançará com o lançamento de leilões de dívida a 9 anos para perfazer os 10 mil milhões de euros do seu plano de financiamento da dívida para 2013, e para concretizar um regresso total ao mercado primário de dívida obrigacionista de médio e longo prazo.

Renegociação suave da dívida oficial europeia

A nível do Eurogrupo e do Ecofin já estão em discussão medidas de “envolvimento do sector oficial” europeu (a parte da troika formada pela Comissão Europeia e o Banco Central Europeu) em relação a Portugal e Irlanda, com a discussão da mudança de perfil das maturidades dos empréstimos dos fundos europeus nos planos de resgate aos dois países e o papel que o programa OMT do BCE poderá desempenhar quando os dois países tiverem regressado plenamente à emissão de dívida obrigacionista (de médio e longo prazo) no mercado primário.

Para alguns analistas trata-se já de uma operação “suave” de renegociação da dívida dos dois países à parte europeia da troika tendo em conta a carga de vencimentos de dívida após a conclusão formal dos planos de resgate. No caso português, a parte “oficial” europeia (abarcando os empréstimos dos fundos FEEF e MEEF) totalizava em final de 2012 cerca de 41,6 mil milhões de euros, ou seja 21,4% da dívida pública (cujo saldo fechou em 194,5 mil milhões de euros no final do ano passado). Essa parcela da nossa dívida ao “sector oficial” tem atualmente um prazo médio de 13,5 anos e um custo médio anual de 3%, segundo o Boletim Mensal do IGCP, publicado este mês. A outra parcela da dívida ao “sector oficial” diz respeito aos empréstimos do FMI no âmbito do plano de resgate. Mas a negociação dessa parcela não está em cima da mesa. Dizia respeito, até final do ano passado, a 24 mil milhões de euros com um juro anual de 4,1% e um prazo de 7,3 anos.

Fonte; Expresso

 

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2017-01-01T18:29:42+00:0026/01/2013|Categories: Geral|Comentários fechados em Juros da dívida teimam em subir
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