“Tudo o que pode correr mal, vai correr mal”, uma lei não cientifica mas universal à qual a família Espírito Santo não foi imune.
Ricardo Salgado cometeu alguns erros, dos quais três deles, em conjunto, se revelaram fatais.
O primeiro foi permitir a alavancagem excessiva do Grupo Espírito Santo (GES), não reduzindo a exposição face à grave crise financeira e económica de 2007 que, logicamente, traria graves consequências para a economia nacional e para a capacidade dos cidadãos e das empresas de pagarem os seus empréstimos.
O segundo foi a guerra com Pedro Queiroz Pereira (PQP), o presidente da Semapa. Foi o fim de uma parceria entre a família Espírito Santo e a família Queiroz Pereira que deu origem ao BESCL (BES em 1999), aquando da fusão do Banco Espírito Santo e do Banco Comercial de Lisboa em 1937.
Com 7% da holding familiar que controla o grupo, PQP sabia dos problemas e foi ele que despoletou a investigação do Banco de Portugal (BP), ao apresentar um dossier ao supervisor em meados de 2013 expondo a situação do GES e o suporte do BES ao grupo.
Com uma dívida total de 7,3 mil milhões, o GES está em falência técnica e não tardará a que a Espirito Santo Financial Group peça protecção contra os credores, pois com uma exposição de 2,35 mil milhões ao GES e com capitais próprios excluindo interesses minoritários de apenas 1,2 mil milhões, é claro que não tem capacidade financeira para sobreviver.
Incapacidade essa que a impediu de pagar 100 milhões ao Nomura relativos ao empréstimo para o ultimo aumento de capital do BES, perdendo 48% no investimento em apenas um mês. Assim como fez com que seja o BES a assumir o pagamento dos valores na esperança de posteriormente os receber.
Na minha opinião essa opção de Vítor Bento foi o seu primeiro grande erro, pois na prática esta a aumentar a exposição ao GES e a agudizar o problema potencial de capital do banco.
Com um Capital Tier 1 do BES em 7 mil milhões (Bank of America), o banco tem uma exposição directa ao GES de 1,8 mil milhões, incluindo 300 milhões da Tranquilidade e 300 milhões da Escom. Adicionalmente, tem um exposição directa ao BES Angola de 3.650 mil milhões entre empréstimos e capital social.
Por último, no pior cenário, o Bank of America acredita que o BES vai ter de assumir a exposição indirecta ao GES de cerca de 3 mil milhões relativos a papel comercial de clientes particulares e institucionais do Banco. Isto devido às responsabilidades do BES na venda de dívida de um grupo que sabia estava com problemas.
Tudo somado e são 8,45 mil milhões de risco potencial que podem, na pior das hipóteses, afundar o capital próprio do banco para valores negativos.
Sem nunca colocar em risco os depósitos dos seus clientes é mais que certo que o BES tem de levantar capital, e muito.
E não chegam os 6,5 mil milhões do Fundo de Assistência Financeira para corrigir o terceiro erro de Ricardo Salgado. Vítor Bento terá ainda que ir buscar mais 2 a 3 mil milhões ao mercado.
É obvio que Salgado errou, não é besta nem era bestial, mas assim como o criticamos também lhe devemos o reconhecimento do mérito no crescimento orgânico da irrelevância para a liderança. O resto da família e o supervisor têm de assumir culpas, a família porque permitiu e o Banco de Portugal porque deveria ter detectado o problema logo na sua génese.
No final perdeu quem mais deu, os accionistas, a mais importante fonte de financiamento de uma economia desenvolvida que, tal como no caso BCP e Banif, perderam quase tudo e foram tratados vergonhosamente sem uma única referência de conforto ou explicação por parte do Banco de Portugal ou da CMVM.
Fonte: Económico