Depois da Estónia em 2011, a Letónia tornou-se ontem o segundo estado báltico a aderir à moeda única europeia, o euro. No próximo ano será a vez da Lituânia de participar no alargamento da zona monetária europeia, tornando-se então o 19.o país da zona euro.
A Letónia é o sexto dos mais recentes estados-membros (os 12 países que aderiram à União Europeia em 2004 e 2007) a adoptar o euro como moeda, depois de Eslovénia (2007), Chipre e Malta (2008), Eslováquia (2009) e Estónia (2011) já se terem juntado à Alemanha, Áustria, Bélgica, Espanha, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Irlanda, Itália, Luxemburgo e Portugal. Apesar de a adesão da Letónia ter sido aplaudida pelas instituições europeias como um “sucesso”, certo é que as sondagens mais recentes mostram que cerca de 60% dos letões até estão contra a moeda única. Mas nada feito: a adesão começou a ser negociada a 5 de Junho de 2013 e foi aprovada pouco depois pelos chefes de Estado e de governo da União Europeia.
Ontem foi o primeiro dia da nova realidade em que os letões agora vivem: mal passou a meia-noite, a troca da moeda local, o lat, pelo euro fez com que os preços fossem arredondados por cima, o que, em conjunto com a bateria de preços que sobem sempre que há a entrada num novo ano, levou a um início de 2014 marcado por um corte imediato no poder de compra dos habitantes da Letónia. Se a isto juntarmos a má gestão da crise da dívida soberana pela zona euro ao longo dos últimos anos, em que a Alemanha continua a emergir como a única vencedora, incluindo a austeridade imposta sobre Riga, não é de estranhar que os letões mostrem algum cepticismo em relação à entrada no euro. De estranhar será antes a inexistência de qualquer referendo na Letónia sobre a entrada na moeda única, sinal de que o debate continua a ser mal visto no avanço da moeda única, apesar de tudo. O parlamento local recusou avançar com um referendo alegando que já em 2004 houve uma consulta popular sobre a adesão à UE.
A Letónia viveu os últimos anos em crise profunda, provocada como tem sido hábito por um sector bancário que engordou até rebentar. Os bancos do país obrigaram o governo local a negociar um empréstimo internacional com Bruxelas e o FMI no valor de 7,5 mil milhões de euros, pago pelos contribuintes e pelos trabalhadores com muita austeridade. A uma recessão de 3,3% em 2008, seguiu-se um mergulho de 17,7% em 2009 e mais 0,9% em 2010. Depois de bater no fundo, a economia acabou por recuperar, com crescimentos anuais superiores a 4% e um défice que passou de quase 10% em 2009 para 2%. Mas estes números são redutores face ao que a população do país passou por culpa dos seus bancos, já que o desemprego explodiu para mais de 20% e só com muita emigração o total de desempregados conseguiu recuar até aos actuais 13% – mais do dobro da taxa média do país antes da crise bancária.
A crise da Letónia foi ainda combatida com a cenoura dos juros baixos que a zona euro representa. Assim que o processo arrancou, os mercados começaram a prever menores custos de endividamento para os contribuintes da Letónia, o que, em conjunto com as medidas de austeridade que foram sendo tomadas desde 2008, deu confiança aos investidores para ganhar dinheiro com as necessidades de financiamento da Letónia. A queda dos juros cobrados pela dívida pública permitiu até ao governo local fazer uma emissão para pagar o empréstimo de Bruxelas e do FMI. Mas o festival dos juros baixos é um pau de dois bicos: basta ver o caso português, em que a entrada no euro e a consequente baixa de juros levou a sucessivos descontrolos governamentais, resultando no cenário que os portugueses vivem actualmente: afogados em austeridade graças ao descontrolo no nível de endividamento do Estado.
Fonte: Jornal i