O desemprego e o aumento de impostos reduziu o consumo das famílias o que comprometeu a viabilidade, sobretudo do sector hoteleiro, dos restaurantes, mas também da saúde.
As empresas de têxtil e vestuário e as transportadoras foram as que melhor resistiram à crise que se abateu sobre Portugal desde 2009. Em contrapartida, a hotelaria e restauração, assim como os sectores da saúde e da educação, foram os mais penalizados. A conclusão é da Bureau van Dijk que efectuou um estudo usando a sua base de dados no qual revela que, entre 2002 e 2013, houve 28.806 empresas que fecharam portas.
As razões deste comportamento são diversas, mas uma das principais está relacionada com “as fortes oscilações na evolução do consumo de bens duradouros e nos ciclos de investimento das administrações públicas, empresas e das próprias famílias” ao nível da habitação, explica o economista Daniel Bessa. O facto de as empresas do têxtil e vestuário – onde se verificou uma maior incidência de mortalidade antes da crise (2002-2008) – terem resistido melhor à crise justifica-se pelo facto de “terem iniciado o processo de ajustamento muito antes da crise”, sobretudo devido ao “choque provocado pelo acordo multifibras e pelo reforço da presença da China e da Índia no comércio mundial”, nomeadamente depois de 2004, explica o antigo ministro da Economia e director-geral da COTEC.
Ao contrário, no período entre 2009 e 2013 “são os sectores mais ligados ao mercado doméstico e à procura interna” que registam as maiores dificuldades e onde mais empresas acabaram por fechar portas. A justificação prende-se com “os efeitos decorrentes da redução da procura provocada pela diminuição do rendimento disponível dos portugueses”, na sequência das várias medidas de contenção orçamental e agravamento fiscal, mas também devido ao aumento do desemprego, precisa Daniel Bessa. A taxa de desemprego em Portugal chegou aos 16,3% em 2013m com 875,9 mil pessoas desempregadas.
Crise afecta mais empresas mais antigas
O estudo da Bureau van Dijk, a multinacional belga que se dedica à publicação de bases de dados financeiras e ‘business intelligence’, revela ainda a distribuição das 28.806 empresas que passaram à não actividade: foram 8.880 no período pré-crise (2002-2008) e 19.926 no período de crise e ajustamento (2009-2013). Por outro lado, antes da crise, eram sobretudo as empresas mais jovens que iam à falência, enquanto no período seguinte a idade média de empresas que deixaram de estar activas foi de 16 anos, o que demonstra que empresas que tinham conseguido ultrapassar períodos de crise anteriores, nomeadamente a recessão de 2003, acabaram por sucumbir à violência das contracções registadas em 2009 e 2011.
As dificuldades de acesso ao crédito são outra das justificações para este fenómeno. “Algumas das empresas que se tornaram inviáveis poderiam ser viáveis, mas tiveram problemas de liquidez num momento em que precisavam de um balão de liquidez para sobreviver à crise”, defende o economista Manuel Caldeira Cabral. O professor da Universidade do Minho sublinha ainda o facto de “a crise ter sido mais prolongada e aprofundada do que inicialmente previsto” e defende que a resposta que a Europa teve à crise, incluindo Portugal, ainda terá de ser estudada, porque a solução foi “juntar austeridade a um ambiente já de recessão, o que colocou as empresas em dificuldades acrescida”. Além disso, acrescenta, o lançamento de linhas de crédito “chegou muito tarde” e os bancos “cortaram fortemente o crédito até às empresas exportadoras”.
Norte e Lisboa são as regiões mais afectadas
Segundo Daniel Bessa, os factores que parecem ter desempenhado um papel mais relevante na intensificação da mortalidade empresarial entre 2009 e 2013 são os níveis acrescidos de concorrência e o peso relativo na estrutural empresarial das actividades mais atingidas pela crise como o imobiliário, construção, materiais de construção e bens de consumo duradouros. A combinação destes dois factores contribuiu justifica que tenha sido no Norte e em Lisboa que se verificaram os níveis mais elevados de mortalidade das empresas. Estas são também as regiões mais afectadas pelo desemprego e, consequentemente, onde se registaram maiores quebras de consumo.
Para João Duque “o facto de Lisboa não ter o maior número de insolvências uma vez que concentra o maior número de empresas, significa que as empresas do Norte estavam menos preparadas para o embate da crise”. Já Caldeira Cabral ressalva a contradição destes dados, porque na sua opinião Lisboa deveria ser a região mais afectada se “o ajustamento tivesse sido no corte de despesa pública. O facto de o Norte ser o mais atingido, onde o peso das exportações no PIB é maior, demonstra que o país não está a fazer o ajustamento que precisa. Desapareceu mais emprego na indústria transformadora do que nos serviços e a economia ajustou mais pelo lado privado do que pelo público”, concluiu o economista.
Em jeito de conclusão, Daniel Bessa frisa que “a crise veio aprofundar o processo de reestruturação do tecido produtivo e alterar a sua natureza”.
Fonte: Económico