O engenheiro português, descrito como ferozmente ambicioso, já assumiu a presidência-executiva da Peugeot Citroën.
Carlos Tavares não teve mãos a medir no primeiro dia aos comandos do segundo maior construtor automóvel da Europa. A Peugeot Citroën anunciou um ‘bailout’ de três mil milhões de euros que envolve o Estado francês e o construtor automóvel chinês Dongfeng, negociou o reforço da aliança com a Dongfeng e assumiu ter tido 2,3 mil milhões de euros de perdas anuais.
Carlos Tavares, com uma carreira de 32 anos na indústria automóvel, sentou-se junto ao antecessor, Philippe Varin, e não escamoteou os números. “Existe uma certa humildade na empresa quando reconhece que fazer mais do mesmo não nos vai levar a lado nenhum. É preciso fazer as coisas de forma diferente”, declarou Tavares no primeiro encontro com analistas na passada quarta-feira.
“É óbvio que temos de ser mais agressivos quando definimos um patamar para um negócio e um crescimento rentável. Parece-me correcto dizer que não estamos no centro de gravidade da indústria”, acrescenta Tavares, 55 anos. O engenheiro português, poliglota e ex-número dois da rival Renault-Nissan, que vende três vezes do que a Peugeot, é um homem atento, acutilante e directo.
Descrito por antigos colegas como ferozmente ambicioso, foi essa vontade indomável de chegar ao topo numa indústria onde poucos conquistam a presidência-executiva que acabou por levar à sua queda. Protegido de Carlos Ghosn, presidente-executivo da Renault-Nissan, aproveitou uma entrevista que deu em Agosto para criticar a indefinição de Ghosn relativamente à sua saída e afirmar o seu desejo de liderar uma empresa rival. O graduado pela prestigiada École Centrale de Paris, que entrou para a Renault em 1981 e trabalhou para a Nissan no Japão e nos EUA, foi demitido duas semanas depois destas declarações. Mas não ficou muito tempo no desemprego.
O próximo desafio – Tavares sucede a Varin como presidente-executivo a 31 de Março – vai por à prova todas as suas competências em termos de execução de projecto. “É extremamente exigente como chefe e muito objectivo em relação àquilo que quer. Será uma importante mais-valia para a Peugeot”, realça um antigo colega.
“Cabe à Renault salvar a Renault. Não compete à Nissan fazê-lo”, dizia Tavares à sua equipa durante o processo de reestruturação da empresa pós-recessão, recomendando a leitura de “Good to Great”, de Jim Collins, onde o autor sugere fórmulas para “converter a mediocridade (ou algo pior) a longo prazo em superioridade a longo prazo”. Tavares herda um conjunto de problemas na Peugeot, como uma base de custos muito elevada e uma dependência excessiva do moribundo mercado automóvel europeu.
Tem pouco a perder, dadas as dificuldades que a empresa atravessa, mas o facto de estar à frente de um campeão nacional faz com que depositem nele elevadas expectativas. As relações com os sindicatos serão fundamentais. Depois de uma reunião traumatizante com os sindicatos franceses no ano passado, em que saiu do lado perdedor, Tavares esteve desaparecido e incomunicável durante quatro dias. O novo presidente diz que a Peugeot tem de reduzir custos e ser mais eficiente.
Fonte: Económico