Desde 2000 que os negócios nas telecomunicações não atingiam um valor tão elevado. Microsoft e Nokia são o mais recente.
Após anos a aumentarem o dinheiro detido nos cofres, as empresas parecem ter decidido que chegou o momento de começar a aplicar essa liquidez. Nas últimas semanas têm-se sucedido mega-negócios de fusões e aquisições (F&A), sobretudo nas telecomunicações. Desde o auge da bolha das tecnológicas em 2000 que não havia tanto dinheiro envolvido em negócios neste sector. Ontem foi a vez da Microsoft anunciar a compra da unidade de telemóveis da Nokia. Isto um dia depois de Verizon e Vodafone terem protagonizado um dos maiores negócios de sempre.
Desde o início do ano, o valor de operações de F&A anunciadas pelas empresas mundiais atingiu 1,9 biliões de dólares, segundo dados divulgados pela consultora Dealogic ao Diário Económico – é um aumento de 16% face ao mesmo período do ano passado e o segundo valor mais elevado desde que o Lehman Brothers faliu em 2008.
Durante a crise financeira e económica, as empresas estiveram a amealhar liquidez , com a incerteza sobre a evolução da economia mundial a fazer com que se pensasse duas vezes antes de se avançar para negócios multimilionários. No caso das cotadas europeias, o valor detido em caixa e equivalentes bateu recordes no final de 2012. A liquidez das 265 maiores empresas do velho continente atingiu 475 mil milhões de dólares (360,7 mil milhões euros), um crescimento de 16% face ao ano anterior. Era o triplo do dinheiro que tinham em caixa há dez anos, segundo dados da Bloomberg. O fenómeno é semelhante nos EUA, com as cotadas do S&P 500 a aumentarem o arsenal de liquidez para 1,63 biliões de dólares (1,2 biliões de euros).
E agora – com empresas como a Liberty Global, a Microsoft e a Verizon a darem o tiro de partida -, os analistas esperam que as mega fusões e aquisições acelerem e dêem fôlego aos mercados. “Contrariamente aos ciclos anteriores, a actividade de M&A não desempenhou um grande papel na recuperação do mercado depois de 2009. No entanto, pensamos que é provável que esta situação mude”, referem os analistas do Nomura num relatório divulgado esta semana.
A motivar a saída do dinheiro que estava parado nos balanços das empresas para concretizar negócios estão os sinais de recuperação económica, tanto nos EUA como na Europa. A maior economia do mundo tem dado sinais de uma melhoria sólida, a tal ponto que a Reserva Federal considera que pode retirar estímulos no curto prazo sem comprometer a recuperação.
Já na Europa, indicadores avançados, como os da produção industrial, por exemplo, têm saído acima do esperado pelos analistas, alimentando as expectativas de que o velho continente recupere da recessão. “Certamente que estamos num ambiente de crescimento de fusões já que as condições económicas estão a melhorar, as empresas têm bastante ‘cash’ e as taxas de juro estão muito baixas. Vejo mais mega-negócios a ocorrerem no último trimestre”, referiu o responsável pela estratégia de acções do UniCredit, Christian Stocker, citado pela Reuters.
Negócios nas ‘telecoms’ em máximos de mais de dez anos
Grande parte do aumento do valor de negócios de F&A este ano está a ser protagonizado pelo sector das ‘telecoms’. As operações anunciadas atingiram 312 mil milhões de dólares (236 mil milhões de euros), segundo a Dealogic, e representam 16% do total de negócios de F&A anunciados este ano. É o valor mais alto desde 2000 para o período entre 1 de Janeiro e 3 de Setembro.
“O sector das telecomunicações sofreu uma grande transformação, ao nível dos operadores, mas também das ferramentas utilizadas para comunicar. Alguns operadores e fabricantes posicionaram-se bem para esta nova realidade, enquanto outros não e atrasaram-se em relação a alguns concorrentes. Para recuperar esse atraso, os operadores que têm dinheiro, como a Microsoft, estão a investir. A juntar a isso está o facto de existirem activos que se tornaram relativamente baratos, como é o caso da Nokia”, explica o administrador da gestora Optimize, Diogo Teixeira.
Mas também se assiste a uma recuperação de operações de F&A noutras áreas de actividade. Entre as dez áreas que tendem a registar um maior volume de negócios, apenas duas (petrolíferas e bebida e alimentação) protagonizam um menor volume de negócios este ano que no mesmo período de 2012.
Fonte: Económico