As pequenas e médias empresas (PME) portuguesas são responsáveis por 92% do crédito malparado no segmento empresarial. No total, são quase 11,7 mil milhões de euros vencidos e não pagos, exactamente o dobro do capital em incumprimento que as PME tinham em Abril de 2011, aquando do pedido de resgate internacional do país. Desde então o incumprimento entre as PME portuguesas não parou de aumentar, enquanto a concessão de crédito a este segmento não parou de diminuir. A carteira de empréstimos dos bancos às PME encolhe há 29 meses consecutivos e Julho não foi excepção.
De acordo com os dados ontem publicados pelo Banco de Portugal, as instituições financeiras voltaram a cortar a carteira de crédito a PME em 690 milhões de euros, em Julho. E este movimento não dá sinais de abrandar, com o corte de Julho a ser mesmo o dobro da média mensal registada desde o início do ano. No total, desde o pedido de resgate internacional, os bancos já eliminaram 16 mil milhões de euros de crédito a PME, o que representa uma diminuição de 17,3% nesta carteira. Em contrapartida, os montantes de crédito disponíveis para grandes empresas e empresas exportadoras permanece intacto.
A actual carteira de crédito a grandes empresas é mesmo 1,4 mil milhões de euros superior à existente em Abril de 2011, num total de 17,7 mil milhões de euros. Já as empresas exportadoras absorvem hoje 14,6 mil milhões de euros do crédito disponível, mais 892 milhões face ao mesmo período.
Uma evolução que assenta no risco que a concessão de crédito a PME acarreta para os bancos e que constitui uma espécie de círculo vicioso do incumprimento. Perante a quebra da actividade económica do país, muitas PME enfrentam quedas nas receitas, o que combinado com a falta de recursos próprios e de fontes alternativas de financiamento aumenta a dependência destas empresas em relação ao crédito bancário. Empréstimos que os bancos não disponibilizam ou fazem-no a preços incomportáveis para as empresas de pequena dimensão. As PME portuguesas continuam a pagar o crédito mais caro da zona euro, com a taxa de juro média cobrada nos empréstimos até 250 mil euros a voltar a subir em Julho, para os 7,02%. A taxa média cobrada na zona euro situa-se em 4,65%.
O Banco Central Europeu já reconheceu que as cedências de liquidez aos bancos, a taxas historicamente baixas, não estão a ser repercutidas nos empréstimos às empresas, nomeadamente às PME. No entanto o presidente da autoridade monetária europeia, Mario Draghi, já disse que as instituições pouco podem fazer quando os bancos apercebem as PME como demasiado arriscadas. “Tentámos tudo. O BCE não tem um instrumento directo para forçar os bancos a emprestarem a PME, nem isso seria correcto”, disse Draghi em Julho, ouvido no Parlamento Europeu. Ainda assim, na semana passada, Draghi afirmou que o BCE continua a estudar medidas de incentivo para a concessão de crédito a PME, juntamente com a Comissão Europeia e o Banco Europeu de Investimento, sem no entanto avançar datas.
O risco que a concessão de crédito a PME representa para os bancos fica bem patente nos níveis de incumprimento destas empresas. Enquanto as PME são responsáveis por 11,7 mil milhões de euros de malparado, as grandes empresas representam apenas 477 milhões de euros, e as empresas exportadoras detêm 642 milhões. Ou seja, as PME são responsáveis por 92% do crédito malparado nas empresas e mesmo considerando também o incumprimento no sector das famílias, as PME continuam a representar mais de metade do total de malparado no sistema bancário nacional. Valem 62% no incumprimento total do sistema financeiro. Uma realidade que afecta 111.630 PME portuguesas e 203 grandes empresas.
Fonte: Eonómico