João Ferreira Marques, director da Whitestar, avisa que Portugal só conseguirá atrair investidores de longo prazo se melhorar o rating.
Depois da construção e do imobiliário, a próxima “onda de choque” no crédito em Portugal vai ocorrer nas Pequenas e Médias Empresas (PME). Segundo João Ferreira Marques, director executivo da Whitestar, uma das principais gestoras de crédito malparado em Portugal, pertencente à esfera do Lehman Brothers, o incumprimento neste segmento de empresas vai subir nos próximos meses.
Esta segunda vaga de crédito malparado será consequência da dificuldade de acesso ao crédito e da queda de rendimento das famílias. Com menos vendas, muitas empresas poderão fechar portas e não pagar os créditos.
João Ferreira Marques lembra, porém, que a “onda de choque de crédito que está por rebentar” será um processo mais longo do que a crise hipotecária, dando alguma margem às autoridades e à banca para reagir. “A crise do crédito nas PME é o tsunami a seguir ao terramoto. O problema do crédito em Portugal não está resolvido”, adianta, em entrevista ao SOL.
Ferreira Marques acredita que alguns bancos portugueses vão ter de assumir novas perdas e recorrer ao que resta da linha de capitalização da troika para a banca, que tem disponíveis seis mil milhões de euros.
O responsável da Whitestar refere que será impossível Portugal atrair investidores de longo prazo para a compra de dívida pública enquanto o rating não subir pelo menos para o nível de ‘investimento’. O país detém hoje um rating com grau ‘especulativo’ e perspectiva ‘negativa’, sendo provável um novo corte nos próximos meses. Para atingir grau de ‘investimento’, o rating tem de subir pelo menos dois níveis. “Para atingir um single A, o nível antes da crise, vai demorar pelo menos uma década”, antecipa João Ferreira Marques.
O gestor adianta que o problema dos juros da dívida e a dificuldade de uma subida do rating estão nos fundamentos da economia portuguesa, que permanecem “iguais ou piores que há uns anos atrás”: fraco crescimento, dívida pública elevada e sucessão de défices orçamentais. “Mesmo uma taxa de juro a 10 anos de 5% é insustentável para uma economia como a nossa”, considera o director da Whitestar.
E os problemas não acabam aqui. Portugal depende sobretudo do exterior e “é preciso ainda que a situação na Europa melhore muito e o risco de Espanha e Itália desça”.
Para a Whitestar, os tempos são de mudança. Dentro de semanas arranca o processo de venda da companhia e a procura de um novo accionista. João Ferreira Marques adianta que vários investidores nacionais e internacionais têm mostrado interesse na aquisição da empresa, que tem hoje 280 funcionários e uma carteira de 2,8 mil milhões de euros em activos de clientes como o Lehman Brothers, BCP ou Bank of America.
Especializada na gestão de carteiras de crédito malparado, a Whitestar adquiriu este ano a operação da GE Money em Portugal, alargando a actividade. A diversificação é para manter e Espanha é um mercado a explorar no futuro, salienta o gestor.
Fonte: Sol