As exportações voltaram a crescer e 2013 até fica como o ano em Portugal obteve a melhor taxa de cobertura das importações pelas exportações desde 1977, ao atingir 83,6%.
Uma situação obviamente benéfica no que à balança de transações diz respeito, mas não necessariamente positiva do ponto de vista das empresas. É que, nas exportações para a Europa feitas por recurso à rodovia, se o camião vai cheio mas volta vazio, quem acaba por suportar esse custo é quem exporta. E, por isso, Gustavo Paulo Duarte, presidente da Associação Nacional dos Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias (ANTRAM), garante que a situação atual está a “penalizar as exportações nacionais, encarecendo-as”.
“Para beneficiarmos os nossos exportadores, a importação tem que ser superior à exportação. O problema é que, hoje em dia, um terço da atividade das empresas de transportes rodoviários de mercadorias é de importação e dois terços de exportação, o que implica que são estes clientes que estão a pagar dois terços do custo total da ida e volta do camião. E isso está a penalizar as nossas exportações e a por em causa a competitividade das empresas”, diz.
Nuno Rangel, vice-presidente do Grupo Rangel, confirma o diagnóstico: “Com mais exportação, existe uma maior procura de meios de transporte de Portugal para a Europa e uma redução da Europa para Portugal, o que significa que, em muitos casos, esses meios voltam vazios, o que acaba por aumentar o custo de exportar”.
Pelo contrário, o aumento das exportações para mercados não comunitários beneficia as empresas de transporte marítimo e aéreo. Nuno Rangel sublinha que, no grupo, o transporte internacional representou 65% do volume de negócios. Não admira, por isso, que o grupo Rangel tenha aumentado a sua faturação em 10% face a 2012. Ao contrário da maioria das empresas no sector, garante o presidente da ANTRAM.
“As faturações têm baixado, por várias condicionantes. Movimenta-se pouco. As exportações não estão a aumentar significativamente face à quebra do volume de mercadorias transportadas e as empresas não estão a investir para atingir outros mercados”, afirma o empresário. E porquê? “A economia portuguesa está a cair desde 2008. Os anos de 2012 e de 2013 foram de reajustes nas estruturas das empresas, na quantidade de mercadorias exportadas, etc. Para o transporte rodoviário, são tempos que aconselham a uma estratégia de prudência. Há que consolidar os clientes e os mercados que se tem e quando a economia der sinais de recuperação pensar-se-á em aumentos de faturação”, defende.
O elevado preço dos combustíveis, as portagens e o aumento das taxas de juro foram algumas das dificuldades do sector em 2013.
Mas o pior foi mesmo a “concorrência desleal” promovida por grandes empresas que recorrem a processos especiais de revitalização. “Obtêm condições únicas junto das Finanças e da Segurança Social, mas também da banca, reduzindo dívida e negociando prazos de pagamento a 25 anos”, ao mesmo tempo que continuam a circular nas estradas e a operar normalmente, diz Gustavo Paulo Duarte, que fala mesmo em dumping e assegura que se geraram situações “dramáticas”.
Ao contrário do transporte rodoviário, as empresas de transporte marítimo veem o seu negócio prosperar. “Seguramente que, para os agentes de navegação, o crescimento das vendas ao exterior tem compensado relativamente às eventuais quebras na importação. Aliás, é importante referir que os destinos que mais cresceram só podem ser atingidos por via marítima, e muito do que é importado, e que não pode diminuir, também nos chega por essa via”, diz o diretor executivo da Associação dos Agentes de Navegação de Portugal (AGEPOR). Belmar da Costa lembra que parte importante das matérias-primas que mais tarde vão incorporar as exportações vêm de fora da Europa.
Para os agentes de navegação, 2013 foi um ano positivo. “O número total de navios agenciados nos portos portugueses cresceu entre 2012 e 2013, o que já não acontecia há alguns anos, em que a tendência era a de haver menos escalas, mas navios de maior porte”, sublinha.
Em termos de dificuldades, Belmar da Costa aponta o “constante clima de insegurança e falta de confiança” no trabalho portuário em Lisboa. “Constantemente reféns da possibilidade de greves na estiva em Lisboa, armadores e carregadores encararam com muita desconfiança as suas operações neste porto”, diz. Os agentes de navegação que aí trabalham “viram a sua capacidade instalada menos utilizada e, portanto, com uma rentabilidade menor”, frisa.
Fonte: Dinheiro Vivo