Apesar dos investimentos crescentes na promoção internacional – e que só nos próximos dois anos ascenderão a 20 milhões de euros -, os industriais portugueses de calçado continuam a concentrar o grosso dos seus esforços no continente europeu.

As vendas para os mercados extracomunitários cresceram 160% desde 2009 e representam já 13% do total das exportações de sapatos. Mas a Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes e Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS) garante que esse peso relativo já não será muito alterado. “A Europa não é um, são 28 mercados ricos”, lembra o diretor geral, Manuel Carlos.

Para a APICCAPS, a perspetiva é que o contributo dos mercados extracomunitários suba até aos 20% até 2020, mas não vá além disso. “A União Europeia é um conjunto de 28 países com realidades diversas, heterogéneas. Um conjunto vasto de países com culturas, hábitos de consumo e tradições distintas, mas com um rendimento per capita médio dos maiores do mundo”, refere Manuel Carlos, que sublinha: “O nível de concentração, num espaço geográfico tão pequeno, de uma população tão rica, faz com que estes territórios sejam mercados alvo prioritários”.

Sobretudo para um indústria que, nos últimos 20 anos, foi evoluindo na gama de produto e de preço. “A indústria portuguesa dedica-se hoje à produção de sapatos mais sofisticados e que se destinam a uma segmento de consumidores com um maior poder de compra”, acrescenta.

O que não significa que os empresários descurem novas oportunidades e novos mercados. Bem pelo contrário. “Estamos muito atentos à evolução do mundo, dos tempos, da história e à volatilidade das economias. Não perdemos nunca a oportunidade de explorar novos destinos, mas mantendo sempre uma posição muito firme e muito forte na Europa”, diz o diretor geral da APICCAPS. Que lembra que este é o percurso oposto ao da economia portuguesa como um todo, que tem “desconcentrado as suas exportações para fora da UE”.

Uma ideia partilhada por Rúben Avelar, da Ferreira Avelar & Irmão, empresa de Santa Maria da Feira que fabrica os sapatos de homem Profession Bottier. “O mercado asiático é um mercado estratégico e prioritário para nós, mas não é ‘o mercado’. Esse há-de continuar a ser sempre o europeu. Mal de nós se deixarmos de investir na Europa. Será o princípio do fim”, defende o jovem empresário. Rúben reconhece que nem sempre é fácil ultrapassar a crise com que alguns países da UE se têm confrontado, mas acredita que a solução passa por “descobrir formas de levar os europeus a continuar a consumir”. As empresas, diz, “têm de ter uma visão planetária, mas com uma estratégia assente num ganho de quota nos mercados europeus”.

Amílcar Monteiro, administrador da Kyaia, tem uma visão diferente. O Reino Unido ainda é o maior destino dos sapatos da Fly London, mas com toda a certeza que, ainda este ano, será relegado para segundo plano pelos Estados Unidos. Não porque as vendas no Reino Unido estejam a cair, mas porque a performance dos EUA se tem revelado extraordinária. Aliás, Amílcar Monteiro reconhece que a Europa, como um todo, ainda é o grande mercado da Fly, mas que já representa menos de 70% das vendas. “Dentro dos mercados europeus estamos estabilizados, mas fora da Europa há muito espaço para crescer”, refere o empresário. Além da China, onde a marca tem vindo, paulatinamente, a apostar nos últimos anos, a Fly prepara-se para abordar a Colômbia e mercados adjacentes. Aliás, no ano em que comemora 20 anos de existência, a ‘mosca’ está finalmente presente nos cinco continentes. “Começamos a vender para a África do Sul, o que marca a entrada em África, que era o único continente que nos faltava”, diz Amílcar Monteiro.

‘Fly London’ abre loja na Irlanda

A Fly London , que tem duas lojas em Londres, pretendia abrir uma em Dublin ainda em dezembro, mas a burocracia irlandesa invalidou o projeto e só agora abriu ao público. O investimento rondou os 50 mil euros. A próxima aposta será do outro lado do Atlântico. “Já estamos no terreno a trabalhar e a selecionar locais”, explica o administrador Amílcar Monteiro, sublinhando o papel das lojas na estratégia de suporte ao crescimento da marca. Em Portugal, têm uma loja no Porto e outra em Lisboa e não pretendem expandir-se. “Temos excelentes parceiros no mercado nacional e é com eles que queremos continuar a trabalhar”, refere. Têm ainda um espaço em Copenhaga (Dinamarca). Amílcar Monteiro nega qualquer intenção de avançar para o franchising.

J.J. Heitor aposta em marca própria

Com meio século a produzir calçado sempre em regime de subcontratação (o chamado private label) a Joaquim José Heitor decidiu avançar com a sua própria marca. A J.J. Heitor foi a opção lógica, já que, além do aspeto gráfico, há toda a sonoridade para aproveitar em termos de comunicação

[em inglês, JJ lê-se Jay Jay]. A empresa de Santa Maria da Feira conseguiu vender mil pares de sapatos na sua primeira época (a marca foi lançada em setembro de 2013). Joaquim Heitor, um dos administradores, admite que o número “parece insignificante”, mas lembra que a marca atua no segmento de luxo. Vendem para Itália, Espanha, Áustria e Alemanha, têm um agente em França, um distribuidor na China e estudam o mercado russo.

Paradigma à conquista de Singapura

A Paradigma é uma empresa familiar de Guimarães com 27 anos de existência. Paulo Ferreira apostou nos mercados externos e, dos 5,5 milhões que faturou em 2013, 90% foram obtidos na exportação. Com experiência a produzir para marcas de luxo internacionais, a empresa decidiu, há dois anos, criar a sua própria marca, a Paradigma, que vale 5% das vendas. “Achamos que tínhamos know how acumulado e condições de nos apresentarmos ao mercado não apenas como uma empresa produtora, mas com uma identidade própria e os resultados têm sido muito positivos”, explicou Paulo Ferreira. Está à conquista de novos clientes em Singapura e na Grécia. Indonésia e Coreia do Sul são outros mercados em vista. Na Europa, está a criar uma rede de agentes.

Fonte: Dinheiro Vivo

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