Que tipo de pessoa prospera na complexidade intercultural? Para ficarmos a saber, entrevistámos mais de 200 executivos de topo nos Estados Unidos, Europa e Ásia, e inquirimos mais de cinco mil gestores em todo o mundo. Fizemos perguntas sobre os seus sucessos e fracassos, o que é que se metia no caminho do seu progresso noutras culturas, e até que ponto gostavam de trabalhar com pessoas que eram diferentes deles.

Perguntámos o que achavam que era preciso para se ser um líder global e um gestor eficiente num ambiente intercultural. O que aprendemos foi que o sucesso no exterior depende de uma mentalidade global, que tem três componentes principais: capital intelectual, ou conhecimento de negócios internacionais e capacidade de aprender; capital psicológico, ou abertura a culturas diferentes e capacidade de mudar; e capital social, a capacidade de estabelecer ligações, de reunir pessoas e de influenciar as partes interessadas – incluindo colegas, clientes, fornecedores e agências reguladoras – que são diferentes de si em herança cultural, experiência profissional ou visão política. Os líderes internacionais mais eficientes são fortes em todas as três dimensões.
Uma mentalidade global é frequentemente desenvolvida cedo na vida. Mas poderá melhorar a sua mentalidade global de forma significativa em qualquer idade. Contudo, precisa primeiro de perceber onde se encontra actualmente.

1. Avalie a sua própria mentalidade
As três componentes de uma mentalidade global são todas definidas por três atributos específicos. Para determinar se está preparado para um cargo de liderança no exterior, faça um inventário pessoal de todos os nove atributos.

Para o capital intelectual, os três atributos chave são:
– Entendimento de negócios global: um forte conhecimento de como a indústria funciona a nível mundial, de como os clientes globais se comportam, de como os seus rivais visam as suas necessidades e hábitos, de como os riscos estratégicos variam por área geográfica.
– Complexidade cognitiva: a capacidade de juntar múltiplos cenários com muitas peças móveis, sem ficar paralisado com o número de opções.
– Visão cosmopolita: um interesse activo na cultura, história, geografia, e sistemas políticos e económicos de diferentes partes do mundo.

No que diz respeito ao capital psicológico, os principais atributos são:
– Paixão pela diversidade: uma propensão para experimentar outras culturas e tentar novas formas de fazer as coisas.
– Sede de aventura: gosto e capacidade para ser bem-sucedido em ambientes imprevisíveis e complexos.
– Auto-confiança: uma vontade de assumir riscos em contextos novos; e a capacidade de ganhar energia, em vez de a perder, num contexto estrangeiro.

Para o capital social, os três atributos mais importantes são:
– Empatia intercultural: a capacidade de se envolver e ligar emocionalmente com pessoas de outras partes do mundo.
– Impacto interpessoal: a capacidade de reunir opiniões divergentes, desenvolver consenso e manter credibilidade; e habilidade em construir redes pessoais – não só com pares e líderes mas também com outras relações potenciais menos óbvias.
– Diplomacia: ouvir o que é e o que não é dito, facilidade em conversas com pessoas que são diferentes de si e uma maior inclinação para perguntar do que para responder.

2. Crie um plano de desenvolvimento
Depois de ter uma ideia concreta de onde se encontra, poderá elaborar um plano de desenvolvimento. Dedique-se a uma série de actividades que desenvolvam os três tipos de capital, focando-se primeiro na área onde é mais fraco.

3. Desenvolva capital intelectual
Não poderá influenciar eficazmente pessoas que são diferentes de si sem um bom entendimento de quais são essas diferenças.
Os gestores podem aprender mais sobre semelhanças e diferenças interculturais não só nas aulas mas também lendo publicações com uma forte cobertura global; visitando sites que oferecem relatórios abrangentes sobre outros países ou que explicam normas culturais de negócios; e até mesmo assistir a programas de televisão com um enfoque internacional. Outras formas de desenvolver o capital intelectual incluem frequentar palestras e workshops sobre fazer negócios num país ou região específica, ou conferências centradas num país.
O capital intelectual é de longe o mais fácil dos três tipos de capital a desenvolver. A maioria dos gestores que são muito bem-sucedidos na frente interna – aqueles a quem é provável serem dadas tarefas de desenvolvimento global – precisam simplesmente de fazer o esforço de o adquirir.

4. Desenvolva capital psicológico
Este é o tipo de capital mais difícil de desenvolver porque há limites para o quanto pode (ou deve tentar) mudar a sua personalidade. Comece com uma reflexão profunda sobre duas questões, que aumentarão a sua auto-consciência e, idealmente, inspirarão um desejo de mudar. Primeiro, pergunte a si próprio: “Como é que me sinto em relação a pessoas, sítios e coisas que me são estranhas? Porquê?” Depois pergunte: “Sinto a necessidade de mudar os meus sentimentos de alguma maneira? Porquê? O que é que isso me trará?”
Após ter explorado as suas respostas a estas perguntas, está preparado para se expor a novas experiências e ideias: Tente falar mais com pessoas fora dos seus círculos sociais habituais, e experimente filmes, restaurantes e museus internacionais.

5. Desenvolva capital social 
Este tipo de capital é em grande parte baseado em relações e adquirido através da experiência. No entanto, é possível aumentar a sua capacidade de se ligar emocionalmente a pessoas que são diferentes de si – pessoas não só de outros países mas também de outras subculturas dentro do seu próprio país. O truque é alargar o seu círculo de interacção social para incluir indivíduos com interesses que divirjam dos seus.
Participar em equipas de negócios internacionais e aceitar tarefas que exijam que viaje para fora são maneiras óbvias de desenvolver o seu capital social global. O mesmo acontece com férias em países estrangeiros, especialmente se incluírem um programa educacional. Mas há formas de se envolver com outras culturas sem o tempo e gastos associados às viagens. Poderá, por exemplo, receber um estudante de intercâmbio, oferecer-se como voluntário para orientar imigrantes recentes ou ter aulas de um idioma estrangeiro. Até mesmo algo tão simples como almoçar com um colega estrangeiro pode ser uma oportunidade para fortalecer o seu capital social. Se perguntar o que é preciso para ganhar confiança ou ser um bom líder na cultura dessa pessoa, ou quais são os tabus de comunicação do país, poderá recolher conhecimentos que o poderão ajudar num cargo futuro.
Os grupos de networking social também oferecem uma forma barata de desenvolver relações sem ter em conta as fronteiras geográficas. Poderá restabelecer contacto com velhos conhecidos em diferentes partes do mundo e aderir a grupos que têm uma ampla visão do mundo, como o Internations ou o Expats Abroad.
Apesar da globalização dos negócios e da interligação geográfica, a maioria de nós não está educada para trabalhar com pessoas que são diferentes. Todos levamos as nossas formas diferentes de pensar, compreender, agir e comunicar para a mesa e não sabemos bem como lidar com uma diversidade intensa. Precisamos de líderes que vejam para além da cultura e política para envolverem pessoas que são completamente diferentes deles.

(Mansour Javidan é reitor de investigação e Professor Benemérito Garvin na Thunderbird School of Global Management. Mary Teagarden é professora de estratégia global, e David Bowen é professor da Cátedra G. Robert e Katherine Herberger em Gestão Global, ambos na Thunderbird School of Global Management.).

 

Fonte: Dinheiro Vivo

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