Analistas de mercado discordam do Governo português e começam a associar a crise na família Espirito Santo ao agravamento do risco da dívida pública em mercado secundário.

As ‘yields’ soberanas nacionais estão hoje a subir em todas as maturidades em mercado secundário, uma evolução que ‘traders’ citados ouvidos pelo Económico e pela agência Reuters relacionam à crise no Grupo Espírito Santo (GES), que motiva hoje novos tombos nas acções do BES (-9,15%) e do ESFG (-9,25%), o maior accionista do banco.

Uma tese que o Governo português tem refutado e que não é evidente no mercado accionista, onde a pressão vendedora sobre o BES convive com uma subida de quase 5% do BCP, que sexta-feira anunciou os termos do seu aumento de capital e que está prestes a recuperar o estatuto de maior banco privado em valor de mercado.

Ao mesmo tempo, outro título bancário, o BPI, cai mais de 2%, e a Portugal Telecom (PT), que tem o BES como seu maior accionista, escorrega 3%. Isto numa altura em que o índice PSI 20 apresenta um saldo negativo de 0,7%.

“Esta subida dos juros da dívida portuguesa deve-se a factores específicos nacionais, nomeadamente o Grupo Espírito Santo”, considerou Steven Santos, da XTB, ao Económico. “Quando uma instância europeia, nomeadamente o BCE, está preocupado com o BES, os investidores também ficam preocupados”, acrescentou, sublinhando que “esta crise, que parecia uma questão interna, já tem uma escala internacional”.

O BCE terá pedido, ao Governo e ao Banco de Portugal, uma clarificação rápida sobre o reconhecimento da idoneidade dos nomes propostos para a futura gestão do BES, avançou hoje o Diário Económico.

Um gestor de fundos contactado pelo Económico, que pediu o anonimado, também afirmou que não há outros factores, além do BES, que possam explicar o agravamento das ‘yields’ soberanas.

Outros ‘traders’ ouvidos pela Reuters argumentam por seu turno que esse alegado contágio ao risco da República está ligado às investigações em curso pelas autoridades do Luxemburgo às ‘holdings’ Espírito Santo International, Espírito Santo Control e ESFG.

Nas maturidades a sete, nove e 10 anos, as ‘yields’ nacionais avançam mais de 10 pontos base. Títulos de dívida que normalmente estão sintonizados com a evolução portuguesa, como os espanhóis, italianos e irlandeses, apresentam uma tendência indefinida, de acordo com dados da Bloomberg.

“A crise no BES pode ter influência, mas não explica a totalidade do movimento de subida das ‘yields'”, disse Gonçalo Salvado, da Dif Broker, ao Económico. “Esta subida pode ser a demonstração de algum receio de que esta crise possa ganhar outro tipo de dimensão”, acrescentou.

Já a Société Général, numa nota enviada a clientes citada pela Bloomberg, argumenta que a subida do risco de Portugal poderá estar associada aos habituais ajustes de portfolio na última sessão do trimestre.

Na sexta-feira, no Parlamento, Maria Luís Albuquerque disse que o BES está bem capitalizado e que não representa qualquer ameaça para a estabilidade financeira nem para as contas públicas.

Em declarações à edição de hoje do Financial Times, Ricardo Salgado destaca o sucesso do último aumento de capital, lembra que o BES foi o único dos principais bancos a não recorrer à ajuda do Estado e sublinha o trabalho que está a ser feito para separar, no GES, a área financeira da não financeira.

 

Fonte: Económico

Comentários

comentários