Para a generalidade da população, o economista francês que foi distinguido com o Nobel da Economia é um desconhecido. Mas na Academia é mais citado que estrelas planetárias como o físico Stephen Hawking ou o economista Paul Krugman.
Existe uma ferramenta que veio revolucionar o trabalho académico e que, entre várias outras potencialidades, permite seguir as citações que um determinado artigo tem. No fundo, é uma medida do seu impacto. No Google Académico, é possível seguir uma ‘teoria’ quase desde a criação até ao momento em que está disseminada por todos os manuais escolares.
A simples busca do nome de Jean Tirole, o economista francês que venceu o Nobel da Economia de 2014, permite perceber rapidamente a importância que tem entre os seus pares. Aliás, há vários anos que faz sempre parte das listas de nomes com maior probabilidade de receber o Prémio do Banco da Suécia em Ciências Económicas (a verdadeira denominação da distinção).
É um ilustre desconhecido fora do seu habitat mas, lá dentro, é uma estrela maior entre os praticantes da chamada ‘ciência maldita’. Não foi por acaso que o membro da Academia Sueca que fez a apresentação em Estocolmo, para justificar a escolha, se referiu a Tirole como um dos mais importantes economistas vivos.
Uma popstar pouco pop
O seu livro mais conhecido, “The Theory of Industrial Organization”, editado em 1988 tinha hoje 12.500 citações no Google Académico. Significa isto que houve 12.500 artigos científicos posteriormente que o utilizaram como bibliografia.
Para se ter uma ideia da dimensão basta ver, por exemplo, que o livro com mais referências do famoso físico Stephen Hawking – em coautoria com George Ellis – fica-se pelas 9.161 citações e mesmo os dois artigos académicos com mais impacto do economista Paul Krugman (Nobel em 2008 e colunista do “The New York Times”) rondam 10 mil citações cada um.
Mas o que fez de facto Jean Tirole? Talvez seja melhor começar pelo início. Economia industrial ou organização industrial, ao contrário do que possa parecer, não tem que ver com o estudo da indústria e do funcionamento de uma fábrica.
Como várias outras palavras que entraram no português sem pedir autorização, a ‘tradução’ de industry, do inglês, para indústria é mais um exemplos que mostra como ser demasiado literal pode não ser bom. Industry, no inglês, refere-se a um setor de atividade (os bancos ou as lavandarias, por exemplo), enquanto no português indústria está relacionado com o setor secundário (a transformação).
Assim, a economia industrial estuda a organização dos mercados em questões como o poder de mercado, a concorrência, a sua estrutura (monopólios, por exemplo) ou a forma como os Estados podem e devem intervir através da regulação.
O principal contributo de Jean Tirole foi apresentar uma teoria integrada de organização industrial usando, para isso, dois instrumentos que tiveram um rápido desenvolvimento a partir dos anos 70 e 80: a teoria dos contratos (que estuda a forma como as partes envolvidas num contrato se relacionam) e a teoria dos jogos (que analisa as decisões estratégicas dos agentes económicos em diversos contextos). Ambas mereceram, de resto, Prémios Nobel nos últimos anos.
Uma nova teoria
A área de maior impacto de Jean Tirole resultou de trabalhos publicados a partir de 1986 e debruça-se sobre a forma de regular monopólios ou empresas com demasiado poder de mercado. Teve na maior parte dos casos a colaboração de outro economista francês, Jean-Jacques Laffont (falecido em 2004 e igualmente uma referência mundial), com o qual desenvolveu um modelo de regulação.
Mas o seu papel no mundo da teoria económica é mais vasto e passa por áreas como a formação de bolhas, falhas de mercado ou inovação e adoção de novas tecnologias. A lista é vasta e as possibilidades de aplicação a mercados reais é praticamente infinita.
Não foi por acaso que as perguntas colocadas ao telefone por jornalistas, durante a cerimónia de anúncio do laureado, visaram quase todas empresas e mercados concretos, como o Google ou a banca. Afinal, mesmo sem se dar por isso, as teorias de Tirole estão entre nós sempre que discutimos o eventual papel dominante de uma empresa ou a forma como o regulador deve intervir numa OPA.
A Real Academia das Ciências Sueca explica no final da nota técnica que disponibilizou para enquadrar o trabalho de Tirole: “Os seus contributos são um esplêndido exemplo de como a teoria económica pode ter um grande significado prático”.
No final de contas, ironia maior é o facto de o homem que dedicou a vida a estudar o poder de mercado ter ele próprio uma gigantesca quota do mercado das citações.
Fonte: Expresso